AUTORES

Maio 25 2014

A MINHA NOVA ORDEM SOCIO-ECONÓMICA

 

Conheci um homem, o Sr. A. Mendes, que tinha um filho que desde cedo manifestou vocação de ser arquitecto. O homem, de profissão modesta, tinha poucos recursos, mas, apesar disso, não desistiu de proporcionar ao filho o curso dos seus sonhos. Vivia cravado de dívidas exactamente porque, não podendo faltar ao pagamento das despesas do estudo, faltava ao pagamento de muitas despesas do dia-a-dia: senhorio, merceeiro, talho, onde pudesse e lhe fosse possível. Por isso, andava, por vezes, de terra em terra a fugir aos credores.

Conversando com ele, descobri, sem ele próprio querer justificar-se do que eu já sabia, que não se sentia culpado ou amesquinhado pela sua conduta de vida, pois tinha elaborado uma filosofia muito especial: a) o filho dele tinha um ideal profissional e tinha capacidades intelectuais para o conseguir; b) se ele, seu pai, não tinha possibilidades económicas, o Estado tinha obrigação plena de as facultar; c) se o Estado não cumpria essa obrigação, então, teria de haver uma entidade que supletivamente arcasse com responsabilidade que o Estado não assumia; d) na estrutura económica e social vigente, a única entidade que, face à negligência ou debilidade do Estado, tinha de assumir a formatura do seu filho, era a Sociedade, a Sociedade em geral. De que maneira? Não pagando à Sociedade o que em Sociedade e para progresso da Sociedade se sentia obrigado a gastar. O homem não se mostrou egoísta. Esta teoria era válida para filho de qualquer pai, embora, se praticada por todos os pais que disso necessitassem, degenerasse numa luta infrene de salve-se quem puder num verdadeiro caos social.

No entanto, a teoria não é tão abstrusa como pode parecer. Roubar pão para matar a fome e só para matar a fome, não é crime, embora social e juridicamente o seja. Se aquele homem impunha à Sociedade apenas o financiamento das despesas estritamente necessárias para a formação do filho, estava, então, a “roubar só para matar a fome”. Como o homem deve ter sofrido por ninguém lhe reconhecer o que para ele não passava de um direito de solidariedade social! Como é lamentável que haja tão poucos poetas que enalteçam o amor de Pai! Morreu há muitos anos. Deve ter um ligar proeminente no Céu! Dizia D. Francisco Manuel de Melo que “para desprezar o mundo, bem basta os homens terem de ser julgados pelos homens”; eu poderei acrescentar que “para desprezar o mundo bem basta que se todos os homens reclamassem todos os seus direitos, seria o caos onde deixaria de haver direitos”.

Face ao que o Sr. Mendes pensava com alguma justiça, e para lhe dar satisfação legal, eu elaborei uma teoria revolucionária que resolveria milhões de problemas.

Ora vejam bem! Hoje em dia parece que toda a gente deve dinheiro a toda a gente, ninguém paga a ninguém: é as empresas que devem dinheiro ao Estado, é o Estado a dever dinheiro às empresas, é os hospitais a deverem dinheiro às farmacêuticas, é as Câmaras a dever dinheiro aos empreiteiros, é as empresas falidas e não falidas a deverem dinheiro aos trabalhadores, é os contribuintes (eu não!!) a deverem dinheiro ao Fisco, é, enfim, um pandemónio de dívidas e uma vergonha social de que todos se queixam, e que atrozmente afligiriam Adam Smith e David Ricardo, tão empenhados que estiveram em contribuir para a prosperidade das nações e no  seu equilíbrio financeiro. Tirei um curso de características financeiras e económicas, mas bem posso rasgar o diploma, porque tudo está, não propriamente ultrapassado, mas ignaramente subvertido.

Parece que A. Smith e D. Ricardo, afinal de contas, não tinham razão, e a prova disso é que…vamos vivendo!...cantando e rindo, ainda que seja só para não chorar!...O pior é que ninguém me pede a minha opinião, pois eu saberia consertar tudo e acabar com as queixas e todo o desconforto da situação actual. Pois é! Se muitos não pagam a quem devem, e quem deve também tem quem lhe deva, está dada a ideia e o primeiro passo: acabe-se com o dinheiro! Dinheiro para quê? Eu quero um fato, vou à loja e pego num e não pago, porque não é preciso, porque o homem do armazém dos fatos também não os pagou, porque não é preciso: a fábrica que os confeccionou não pagou nada nem pelo tecido nem aos operários, porque não é preciso – estes tinham alimentação sem pagar aos lavradores, os lavradores tinham sementes e alfaias sem pagar, e quem lhas forneceu não precisava de receber qualquer pagamento, porque recebeu e deu tudo numa economia colectiva de solidariedade social. Se eu quiser um remédio não preciso dar dinheiro (coisa que deixou de existir), porque a farmácia não pagou ao laboratório produtor: este não pagou os “venenos” que meteu nos comprimidos, não pagou transporte, quem fez o transporte não pagou o combustível, quem lhe deu o combustível também não o tinha pago, nem aos empregados, e assim sucessivamente numa vasta e harmoniosa câmara de compensação.

Se aqueles génios do século XVIII, em vez de elaborarem teorias que vieram a ficar obsoletas, tivessem perfilhado esta teoria, melhorando-a quanto baste, tinham caído no goto da modernidade do século XX e XXI, para além de ter o grande agradecimento do Sr. Alberto Mendes. Se eu fosse mais novo, ainda me abalançava a ser eu o grande iluminado da nova ordem social, económica e financeira. Não sei se A. Smith e D. Ricardo têm estátuas em sua honra, que hoje serão consideradas imerecidas. Mas eu teria a minha estátua, honrada por toda a eternidade. Já que até agora nunca tive protagonismos e glórias, não estou interessado em glórias póstumas, e, além disso, receio que os deputados e governantes de agora, tão rasteiros em tudo, tenham dificuldade em compreender e executar. Prefiro manter-me ignorado, até porque, acima de tudo, é a minha vingança por ninguém pedir a minha opinião!!...

 

                                                                                                       laurindo.barbosa@gmail.com

publicado por Fri-luso às 08:35

Maio 17 2014

publicado por Fri-luso às 10:15

Maio 16 2014

 

SER MÉDICO

 

Quando eu era muito jovem, há, portanto, à volta de sessenta e cinco anos, encontravam-se nas salas de espera de alguns consultórios médicos duas coisas muito interessantes. Uma, era um quadro colorido e encaixilhado em que se via um médico a atender um doente, primeira consulta em doença grave. O doente punha todas as suas esperanças no seu médico, e ao olhar para ele via nele uma auréola que fazia dele o próprio DEUS. Algum tempo depois, o doente, já sem grande parte dos seus grandes temores, ao receber o médico, já o via como um ANJO. Mais algum tempo depois, quando já não havia dúvidas de que o perigo tinha sido esconjurado, o doente via no seu médico já não Deus, nem anjo - via-o com simpatia mas apenas como simples HOMEM. E logo a seguir, quando o médico reclamava os seus honorários, então tudo mudava, e considerava o médico como um DEMÓNIO! Sendo humorístico, não deixava de ter muito de verdade.

A outra coisa interessante que também se podia ver em algumas salas de espera dos consultórios, era um texto de louvor ao médico, de cujo conteúdo nada me lembro, a não ser de uma frase, talvez a concluir o texto, que penetrou bem no meu espírito: AMA O TEU MÉDICO!

Na verdade, o médico daquela época era um sacrificado que bem merecia ser amorosamente apreciado. Hoje em dia, quando alguém fica doente de madrugada, o doente encaminha-se para o hospital; naquele tempo, o doente valia-se do seu médico ou do médico mais próximo e ia arranca-lo do seu leito – lá ia o médico, frio que estivesse, de camisa, calças e agasalhos vestidos sobre o seu pijama.

Se calhar, ficava todo contente por saber que naquela hora, para o doente e família era o próprio Deus.

Ser médico era das profissões de maior prestígio. O médico não dispunha ainda dos meios auxiliares de diagnóstico de agora. Tinha de descobrir por auscultação, por apalpação, por intuição ou mesmo adivinhação, a doença que o seu paciente tinha e, sem as especialidades farmacêuticas, que agora superabundam no mercado, era ele que estabelecia o receituário para o farmacêutico aviar: tantos gramas de potássio, tantos gramas de sódio, um miligrama de sulfato de estricnina, um grama de ácido acetilsalicílico, mais um grama disto e mais um miligrama daquilo… Para se ser bom médico, era preciso que tivesse uma espécie de sexto sentido, a que é costume chamar “olho clínico”. Hoje tudo está mudado, o que muito contribui para a banalização dos valores. O “olho clínico” raras vezes se torna necessário, já não é preciso ir de madrugada ao leito dos doentes conforta-los e cura-los - pelo contrário, o médico de agora, regra geral, não deixa que lhe retirem direitos e defende-os tenazmente, nem que seja recorrendo a greves, como os outros… sem pensar em categoria, prestígio e honorabilidade…como os outros…e os doentes ficam entregues às suas orações, se é que sabem rezar.

 Como há muitos que não sabem rezar, poucos haverá que consigam ver no seu médico o seu Deus mesmo nas horas dolorosas da doença, por muito competente e dedicado que ele seja, mas com facilidade o identificam com o Demónio em variadas situações. Como também há muitos médicos que não sabem rezar, também o médico de agora, regra geral, não está interessado em ser Deus ou anjo para ninguém, como eram os seus colegas de antigamente. Dá muito trabalho,  exige muito sacrifício, por muito poucos seria apreciado.

                                                                                                      

                                                                                                       laurindo.barbosa@gmail.com

publicado por Fri-luso às 14:11

Maio 16 2014

PENSAMENTOS

 

112  –  Uma das mais belas expressões do verdadeiro amor e, por isso extremamente  rara, é a que certo livro me ensinou : o homem que verdadeiramente ama a sua esposa e a esposa que verdadeiramente ama o seu marido, deve amar os seus sogros com o mesmo impulso amoroso e com a mesma entrega dadivosa, pelo simples facto de eles serem os autores da vida daquele a quem ama, e com muitos sacrifícios o ter criado, para por fim lho entregar, para sua felicidade e consolo do seu coração.

 

113 – Quem não sabe e sabe que não sabe, é humilde. Ensina-o

          Quem sabe e não sabe que sabe, está dormindo, acorda-o

          Quem sabe e sabe que sabe, é um sábio, segue-o

                                                                               Provérbio árabe

E eu, que posso dizer de mim a respeito da minha sabedoria? Por exclusão de partes, sinto-me na última categoria, porque sei, sei que sei e sei que muito me falta saber. Serei eu, então um sábio? Não me parece. Há pouco tempo, estive a conversar com uma senhora que muito me estima. Quis mostrar-lhe que certas opiniões ou conceitos muito vulgarizados e que ela aceitava,  a meu parecer, não eram correctos, o que acarretava procedimentos que necessitavam ser corrigidos. Falei-lhe com clareza, mostrei-lhe a boa lógica e apresentei argumentos convincentes, expliquei o porquê das coisas, mostrei que sabia e que sabia que sabia. Ela ouviu, ouviu. Não contestou, não replicou. Ao fim, perante o silêncio dela, eu muito convencido da minha “superioridade”, exclamei muito triunfante:

 - É ou não é?

Quando esperava que ela me dissesse que sim, que estava totalmente de acordo, ou outra coisa muito semelhante, ela responde-me

 Não sei !...

Foi uma decepção. Mas foi bom ter sido assim. Tirou-me as veleidades de eu ser sábio. Se na verdade o fosse, aquela senhora que de ignorante não tem nada, acolheria sem reservas o que eu lhe disse, me seguiria no que eu mostrava ser melhor.

 

114Li em algures que J. Saramago, leitor que foi da Bíblia, talvez parcialmente, achava que Deus, a existir, era um ser vingativo. Deve ter lido, por exemplo, que Deus, um dia, iria pôr os seus inimigos como escabelo dos seus pés. Pelos vistos, interpretou tudo bem “à letra”, mas, então, devia reparar que nessa interpretação havia qualquer coisa que não estava certa – é que Deus não tem pés!

 

115O que é amoral, tem em si próprio algo de imoralidade; o que é ridículo, tem em si próprio algo de iniquidade; o que é falso, tem em si próprio algo de fealdade; o que é criminoso tem em si próprio gérmenes de autodestruição, porque é simultaneamente feio, falso, iníquo, ridículo e imoral. Quando Deus, no Génesis, viu que “tudo era bom”, é porque tudo tinha verdade e beleza –   nada era ridículo, nada era falso, nada era amoral.

 

116 – Se a vida como fenómeno biológico é uma coisa fascinante e maravilhosa, o que a vida tem de mais transcendente é o sentido que lhe damos. Se não for orientada para as aspirações do coração humano, da Beleza, do Bem e da Eternidade, não merece o que consome e torna-se detestável por aquilo que dejecta.

 

117 Eu existo, logo, sou verdade. Só o que tem existência “concreta” material ou espiritual pode ser verdade perante nós. O som do telefone que toca, produzido por anomalia ou avaria da central e mesmo ninguém ouviu, não é verdade para ninguém.

Deus é a suprema verdade, é Ele próprio a Verdade, e, por isso, é telefone que toca, é som que brama, para que todos nós possamos tomar dela conhecimento.

                                                                                                       laurindo.barbosa@gmail.com

publicado por Fri-luso às 14:09

Laurentino Sabrosa
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