AUTORES

Janeiro 16 2014

POSTAL DE PARABÉNS A QUEM CELEBRA O SEU ANIVERSÁRIO

Caro Leitor

 

Não importa quando nem onde, alguém a que chamarei  ALGUÉM e outra pessoa a quem chamarei O OUTRO, foram cada qual à sua labuta. Quando ao fim do dia se encontraram, o ALGUÉM disse ao OUTRO: - Tive um dia terrível, comecei por ter logo que saí um mau encontro, tudo correu mal, e estou mesmo doente, cheio de dores de cabeça e…

-E eu também – interrompeu o OUTRO.

-Que te sucedeu então?

-Estive todo o dia com disenteria e estou cheio de dores de barriga e de cabeça.

Dito isto, o OUTRO alheou-se, calou-se, virou costas e foi recostar-se num sofá.

Se este facto fosse uma parábola como aquelas a que Cristo habituou a multidão nas suas pregações, poderíamos perguntar: E vós, que dizeis a este respeito? Há alguma coisa de errado entre eles?

De entre todos os ouvintes, uma pessoa havia de dizer: -Há, sim. O OUTRO não foi atencioso ou amoroso como devia, pois, preocupado apenas consigo próprio, ignorou totalmente o sofrimento do ALGUÉM. Este, o ALGUÉM, apesar de estar em sofrimento, foi compreensivo e solícito, o que era uma promessa de apoio e da ajuda que fosse necessária.

 

Então, a resposta do Mestre era inevitável:

- Disseste bem. Vai e faz como ele.

 

Caro Leitor ou Leitora. O verdadeiro amigo é aquele que está disponível às duas horas da madrugada, não apenas às duas horas da tarde. Da mesma maneira, é aquele que nos atende com solicitude e desvelo nas nossas horas de sofrimento, não apenas nas suas horas de serena felicidade, mas mesmo quando ele próprio está nas suas horas más, porventura em sofrimento superior ao nosso.

 

Esperamos que os seus amigos, que o vão rodear e felicitar pelo seu aniversário, sejam verdadeiramente seus amigos, o que é mais mérito seu que de mais ninguém. É sinal de que também o caro leitor ou leitora aniversariante soube fazer bons amigos sendo para os outros o que agora os outros estão a ser para si. É porque, um tanto misteriosamente, soube ouvir e praticar o conselho do Mestre: Vai e faz como ele.

 

Tomamos a liberdade de nos associarmos aos seus amigos e à sua família, desejando-lhe uma boa celebração do seu aniversário com os nossos cordiais cumprimentos e desejos de todas as venturas, por uma vida longa e cheia de saúde.

 

Em nome do nosso BLOG,  amistosas felicitações

                                                                                                                                                                                 laurindo.barbosa@gmail.com

publicado por Fri-luso às 15:45

Janeiro 16 2014

SABER LER

 

Tive um amigo, com o antigo 7ºano do liceu, que lia mesmo muito. Comprava livros e mais livros e, quando faleceu, deixou uma boa biblioteca em quantidade e, vá lá, em qualidade.

No entanto, sempre me quis parecer que tinha um nível intelectual muito rasteiro. Instalado confortavelmente no seu emprego numa companhia de seguros, cristalizou a sua vida na rotina do serviço até à reforma, e estagnou a sua actividade intelectual em cinquenta por cento do que aprendeu no liceu e que a sua memória conseguiu reter até morrer.

Ler livros e mais livros parecia ser a segunda rotina para as horas em que estava sem preocupações de serviço. Nunca lhe notei uma elevação de conceitos e de opiniões haurida das suas leituras. Não escrevia nada, nunca falava deste ou daquele escritor ou poeta, que tinha esta ou aquela ideia com a qual concordava ou discordava.

Um dos livros que ele tinha na biblioteca que por morte legou, era o HAMLET, a célebre peça teatral de Shakespeare. Fui eu que lhe ofereci esse livro, por saber que ainda não o tinha e, muito secretamente, para analisar a sua reacção e aproveitamento da leitura. Três meses depois, perguntei-lhe se ele já tinha lido o livro. Disse-me que sim. Então, perguntei-lhe:

- E, então, que tal? Gostaste? É uma grande obra, não é ?

- Ora, o Hamlet era meio maluco…

Ler esta obra de Shakespeare, uma das principais deste grande dramaturgo e poeta, e concluir, apenas e erradamente, que Hamlet era meio ou totalmente maluco, é o que eu chamo NÃO SABER LER. Ser insensível às frases simultaneamente poéticas e filosóficas de Shakespeare, coisa para que muito poucos autores têm talento, sem apreciar ou não a poesia, sem estar de acordo ou não com a filosofia, acho que revela uma grande limitação da instrução e da cultura.  

Na verdade, o autor nesta sua obra expõe, talvez mais do em qualquer outra, os seus conceitos sobre a psicologia das pessoas e a sua filosofia da vida e da morte.

Começa por ter por tema o que é mais vulgar do que parece, ou seja, o secreto ambiente de perfídia, de traição e até de crimes entre as altas esferas da sociedade, mesmo daquela sociedade que devia ser um relicário de virtudes. Hamlet é figura ímpar de elevação moral e espiritual entre o lamaçal da corte de que era filho, e por isso muito teve de sofrer.

Muitos são os passos em que isso se evidencia, em que eu gostaria que o meu amigo tivesse reparado e quem sabe ler repara para seu proveito moral e espiritual. Apenas alguns:

Quando Horácio, um amigo de Hamlet, se mostra surpreendido perante coisas que não estava a compreender, Hamlet solta-lhe uma frase: Há mais coisas no Céu e na Terra do que sonha a tua filosofia. É um ensinamento que todos devemos ter sempre presente. Noutro ponto, quando Polónio, camareiro-mor, promete tratar um grupo de comediantes que protagonizou uma peça teatral no palácio, segundo o seu merecimento, Hamlet diz-lhe: Muito melhor! Trata-os segundo a tua honra e categoria e, assim, quanto menor for o merecimento deles, maior é a tua magnanimidade. É um convite a sermos magnânimos para todos, independentemente deles serem merecedores ou não. Aliás, é assim que Deus procede para connosco. Seriamos bem infelizes se Deus nos favorecesse só segundo os nossos méritos.

Com muito significado, quanto a mim, é uma conversa entre o rei, que já tinha assassinado o pai de Hamlet, e Laertes, filho do referido Polónio, na qual se propõe assassinar o próprio Hamlet, pela segunda vez, para dele se livrar. O plano consiste em provocar Hamlet para um duelo de esgrima com o tal Laertes, em que o florete que lhe vai ser entregue tem a ponta envenenada. E o rei, então, diz: Como ele é muito confiado, extremamente generoso e à margem de todo o ardil, não examinará os floretes e poderás escolher a arma que com uma estocada hábil será suficiente. Imagine-se! Os bons sentimentos de uma pessoa, a serem usados para a sua própria perdição! Também isto sucede na vida real de muitas pessoas, mas raras vezes estamos precavidos.

 Parece que SABER LER, para meditar e assimilar estas coisas para proveito moral e espiritual, não é tão fácil como parece. Será dom de Deus que nem a todos é concedido, até porque só será concedido não a quem conservar na sua formação apenas metade do que aprendeu na escola, mas, pelo contrário, ter a preocupação de saber mais do que na escola lhe ensinaram.

laurindo.barbosa@gmail.com

publicado por Fri-luso às 15:11

Janeiro 03 2014

 

Que este Ano Novo venha cheio de alegria, paz, amor, sucesso e felicidade!

publicado por Fri-luso às 19:52

Janeiro 03 2014

INCONGRUÊNCIAS, anomalias, SINAIS DOS TEMPOS

 

No meu tempo de criança, há 60 anos ou mais, os doentes de muito poucos recursos não se podiam tratar devidamente. Diziam: para o médico, eu ainda iria arranjando dinheiro; mas os remédios? São tão caros!...nem vale a pena pensar nisso.

Hoje é contrário: para os remédios essas pessoas ainda vão arranjando dinheiro, visto que, ao contrário do que era antigamente, a grande maioria deles tem uma boa comparticipação da Segurança Social; mas pagar ao médico? Eles cobram-se de tal maneira, que quem tem parcos recursos mal pode pensar nisso. E se precisar de um médico de uma certa especialidade? Oh! então é que são elas! O preço duplica ou triplica. O pior é que um médico que dantes era médico de clínica geral, agora também é “especialista” – especialista de medicina interna e familiar. Se precisar muito e não tem dinheiro, vai ao seu Centro de Saúde, ao médico que lhe atribuírem depois de vários dias de espera e de paciência, e …é o que Deus quiser! Se for necessária uma operação cirúrgica, depois de muito trabalho, paciência e outros sacrifícios, lá consegue ver por fim agendada a tal operação, não se sabe para quando, que pode demorar meses ou anos. Durante a espera do que tanto tempo demora a chegar, a mulher diz para o marido:

 – Ó homem, que tristeza, nunca mais te chamam para fazeres essa operação que tanto precisas!

E o marido, conformado, responde:

 – Deixa lá, mulher, não há nada a fazer! Não temos compadres que me façam passar à frente dos outros, pois não? Então, vamos andando, é o que Deus quiser! Vou morrer antes? E se morrer?..

Esta vontade de querer ter alguém que o favoreça na vida, mesmo em prejuízo dos outros, passou a ser um dos aspectos do velho struggle for life, necessidade fulcral para sobrevivência humana, sem a satisfação da qual todos são ou receiam fundadamente ser cilindrados. Vencidos da vida! Vae victis! ai dos vencidos! É nos exames de condução, nos exames que nos concedam diplomas de grande categoria profissional, nos internamentos hospitalares e operações cirúrgicas, na obtenção de empregos rendosos, se possível sinecuras, é em tudo que seja ter na vida um lugar ao sol ou um lugar à sombra, conforme as nossas conveniência ou gostos.

Se não houver alguém que nos favoreça, favorecemo-nos a nós próprios, exagerando os nossos direitos, esquecendo os nossos deveres, aproveitando-nos de deslizes ou esquecimentos dos outros, usando a nossa supremacia contra a debilidade económica ou social deles, e não se importando de dar e considerar bom para eles o que para si não presta.

Há já bastantes anos, quem de direito queria encontrar onde enterrar lixos radioactivos Foram pensadas algumas localidades como apropriadas para isso, mas logo uma onda de protestos se levantou em cada uma delas. Ninguém queria aceitar, invocando toda a espécie de razões, todas bem elaboradas. Mas aquele lixo tóxico tinha de ter um destino, onde? A resposta de todos implicitamente era: em qualquer lado; desde que não seja à nossa porta!...

Dantes a sabedoria popular, através de tradições, ditados, aforismos, a chamada “sabedoria das nações” cheia de lógica e de bom senso, era conhecida e seguida. Mas os nossos deputados, da Assembleia Nacional e de outras assembleias são mestres no seu desconhecimento. Não importa o Governo dizer que não há dinheiro, que estamos de tanga, que temos de a abandonar hábitos de viver acima das possibilidades. Os deputados, principalmente os vocacionados para a oposição derrotista, o que querem é lisonjear a turba para que ela não seja beliscada nos seus direitos adquiridos em época de desvario, esquecidos de que… se não há, não há, onde não há o rei o perde, ou seja, se não há, não há, o próprio rei por mais absoluto que seja não abicha nada. Não querem que os outros percam direitos para que eles próprios também não percam direitos.

Por outro lado o próprio Governo, os seus ministros, embora dizendo que estamos de tanga, também não querem perder benesses e regalias, e os cortes, a austeridade, é só para os outros, para a turba, habituada a maus exemplos e a pérfidos incentivos. Por vezes, até dizem que o benefício que para o Estado e para o Orçamento resultaria do corte das suas regalias e luxos, era tão diminuto que não vale a pena pensar nisso, até porque, eles sim, são cidadãos de primeira, enquanto os outros, a turba a quem se deviam dedicar, são cidadãos de terceira. Não sabem que em assunto de economias grão a grão enche a galinha o papo, e nunca ouviram dizer que se uma imagem vale tanto como mil palavras, um bom exemplo vale tanto como mil imagens.

E os sindicatos! Alguém ouviu dizer que algum tenha dito aos seus associados que acima dos seus direitos está o dever de serem ponderados, justos e comedidos a exigir direitos? Algum disse que os trabalhadores só podem exigir direitos se eles próprios criarem condições para que eles lhes sejam dados, trabalhando mais, produzindo mais, por patriotismo, por civismo e para garantia dos próprios postos de trabalho? O que querem é lisonjear a malta, incitando-a a exigir mais, sempre mais, e quanto menos se necessitar mais se deve exigir. E então, greves e mais greves! Sem importar os custos sociais e económicos e o que indirectamente e a prazo, prejudicam o próprio trabalhador! Não importa quem paga, quais as consequências! Actualmente seguir, aconselhar o bom senso da “sabedoria das nações” não é seguir o que é mais correcto e aconselhável, para nós e para os outros, para agora e para o futuro, é seguir o “politicamente correcto” do imediato e do mais atractivo.

De vez em quando, há remodelação do Governo, substituição de ministros e secretários de Estado. Logo após a nomeação, lá são eles abordados pelos jornalistas, quais vampiros que se alimentam de sangue, nem que seja de sangue podre, que querem morbidamente saber coisas do recém-nomeado, quais os seus planos, o que vai fazer e o que vai alterar, etc., etc. A mim, quer-me parecer que a única resposta honesta e inteligente era mais ou menos: caros senhores, acabo de ser nomeado, embora não seja totalmente ignorante do que me espera, falta-me saber muito sobre os problemas reais, qual o conteúdo dos dossiers em curso, e, por isso, só depois de me informar e de os estudar convenientemente em todos os pormenores, é que posso fazer algumas declarações.

O leitor ouviu algum novo ministro ou secretário falar desta maneira? Eu não ouvi, pelo contrário, o indivíduo apesar de até ali ter estado fora dos corredores do poder e de ser muito natural que ainda não tenha o conhecimento completo da complexidade do cargo que lhe foi atribuído, logo fala cheio de importância e sabedoria, já senhor de todos os assuntos!

No entanto, é de presumir que são individualidades altamente preparadas, porque nunca tanto como hoje houve tantas cabeças bem pensantes e bem falantes, que sabem de tudo. São os ministros, os secretários e subsecretários, os bastonários, os deputados, os conselheiros, os Presidentes disto e daquilo, os comentadores, os directores gerais. O leitor já reparou na quantidade enorme de sindicatos, de associações, de fundações, de institutos, que há em Portugal, todos dirigidos por gente de grande sabedoria, todos a quererem o bem comum, todos a trabalharem “a bem da Nação”, embora abjurem dessa linguagem? Só que…os bons resultados estão bem à vista…

Nunca houve tão grande inundação de sabedoria académica como na actualidade. As universidades principalmente as particulares e modernas, inventaram cursos científicos (com o aval do Estado!) cuja utilidade e aplicação só os doutorados nesses cursos vão compreender bem, no fim do curso. Há uma proliferação de cursos, em que a Ciência é profusamente subdividida e aumentada, aumentada talvez a querer corresponder à profecia evangélica de que “a ciência aumentará”. Engenharias de todas as etiologias! No entanto, a mim me parece que esses cursos e quem os inventou, têm uma certa analogia com certo chinês que para levar a vida fundou uma escola para estudantes que quisessem saber como caçar dragões. Isso foi há muitos, muitos anos, no tempo em que as galinhas tinham dentes, ou ainda muito antes, quando havia dragões mas já estavam em via de extinção. Pois o homem, fundou uma escola, ensinava a caçar dragões e dava-lhes um diploma. De posse do diploma aí vai o diplomado caçar dragões, mas como não encontrava dragões, que fez ele para viver sem penúria? Fundou ele próprio outra escola, ensinando também ele a caçar dragões!

E assim vamos andando, é o que Deus quiser…

Porque isto é mais verdade do que aquilo que parece, não admira que a par de tanta doutorice haja tanta burrice, tanta incompetência e por arrastamento tanta ganância e tanta corrupção entre quem devia ser o escol do país, e tanta apatia e indiferença da parte da generalidade desse país. Sabe-se bem onde está o mal, mas mal se sabe onde está o remédio e como aplica-lo. Por isso, as poucas vozes que se levantam, não são antídoto poderoso. Uma dessas vozes é este meu escrito, e outra voz, mais poderosa que a minha, mas também ineficaz, é o que se segue, da autoria dum meu colega de trabalho, poema publicado na revista da nossa classe profissional, sem valor literário, mas satírico e muito justo, que retrata esta nossa época:

Já tenho licenciatura / agora sou um doutor. / Tenho montes de cultura. Vou ser ministro? E se for?

Inscrevi-me ao fim do dia, naquela Universidade dos diplomas de inverdade / para testar o que sabia, já de manhã, mal se via, de maneira prematura fiz muito má figura./ Mas mesmo sem saber nada, formei-me na Tabuada / já tenho licenciatura!

Dei cem erros no ditado / e agora o mais curioso / por estar muito nervoso à recta chamei quadrado! / Quando me foi perguntado / se conhecia o reitor / respondi que não senhor / embora fosse meu tio! / Disse mentiras a fio/ Agora sou um doutor.

Com mesquinhez e com tudo, puxei das equivalências / juntei outras mil valências / Deram-me mais um canudo, com diplomas contudo / Era fácil a leitura, deixei de ser um pendura. / Sou político afamado / sou falado em todo o lado, Tenho montes de cultura./ E agora, queiram ou não, mesmo sem nenhum valor/ eu falo que é um primor na Assembleia sentado,/ Para já sou deputado!/ Vou ser ministro? E se for?

 

Antigamente, e mesmo agora, o homem que espera uma operação cirúrgica, diz resignadamente, tristemente: Vou morrer antes? E se morrer? Agora, muito doutor formado às três pancadas, com sorte e compadrios, tem o desplante de dizer ou pelos menos de pensar triunfantemente: Vou ser ministro? E se for?

Uma época que inspira uma literatura desta só pode ser uma época de decadência.                                         aurindo.barbosa@gmail.com     

 

5 de Fev.2013                                     

publicado por Fri-luso às 19:44

Laurentino Sabrosa
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