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Maio 16 2014

 

SER MÉDICO

 

Quando eu era muito jovem, há, portanto, à volta de sessenta e cinco anos, encontravam-se nas salas de espera de alguns consultórios médicos duas coisas muito interessantes. Uma, era um quadro colorido e encaixilhado em que se via um médico a atender um doente, primeira consulta em doença grave. O doente punha todas as suas esperanças no seu médico, e ao olhar para ele via nele uma auréola que fazia dele o próprio DEUS. Algum tempo depois, o doente, já sem grande parte dos seus grandes temores, ao receber o médico, já o via como um ANJO. Mais algum tempo depois, quando já não havia dúvidas de que o perigo tinha sido esconjurado, o doente via no seu médico já não Deus, nem anjo - via-o com simpatia mas apenas como simples HOMEM. E logo a seguir, quando o médico reclamava os seus honorários, então tudo mudava, e considerava o médico como um DEMÓNIO! Sendo humorístico, não deixava de ter muito de verdade.

A outra coisa interessante que também se podia ver em algumas salas de espera dos consultórios, era um texto de louvor ao médico, de cujo conteúdo nada me lembro, a não ser de uma frase, talvez a concluir o texto, que penetrou bem no meu espírito: AMA O TEU MÉDICO!

Na verdade, o médico daquela época era um sacrificado que bem merecia ser amorosamente apreciado. Hoje em dia, quando alguém fica doente de madrugada, o doente encaminha-se para o hospital; naquele tempo, o doente valia-se do seu médico ou do médico mais próximo e ia arranca-lo do seu leito – lá ia o médico, frio que estivesse, de camisa, calças e agasalhos vestidos sobre o seu pijama.

Se calhar, ficava todo contente por saber que naquela hora, para o doente e família era o próprio Deus.

Ser médico era das profissões de maior prestígio. O médico não dispunha ainda dos meios auxiliares de diagnóstico de agora. Tinha de descobrir por auscultação, por apalpação, por intuição ou mesmo adivinhação, a doença que o seu paciente tinha e, sem as especialidades farmacêuticas, que agora superabundam no mercado, era ele que estabelecia o receituário para o farmacêutico aviar: tantos gramas de potássio, tantos gramas de sódio, um miligrama de sulfato de estricnina, um grama de ácido acetilsalicílico, mais um grama disto e mais um miligrama daquilo… Para se ser bom médico, era preciso que tivesse uma espécie de sexto sentido, a que é costume chamar “olho clínico”. Hoje tudo está mudado, o que muito contribui para a banalização dos valores. O “olho clínico” raras vezes se torna necessário, já não é preciso ir de madrugada ao leito dos doentes conforta-los e cura-los - pelo contrário, o médico de agora, regra geral, não deixa que lhe retirem direitos e defende-os tenazmente, nem que seja recorrendo a greves, como os outros… sem pensar em categoria, prestígio e honorabilidade…como os outros…e os doentes ficam entregues às suas orações, se é que sabem rezar.

 Como há muitos que não sabem rezar, poucos haverá que consigam ver no seu médico o seu Deus mesmo nas horas dolorosas da doença, por muito competente e dedicado que ele seja, mas com facilidade o identificam com o Demónio em variadas situações. Como também há muitos médicos que não sabem rezar, também o médico de agora, regra geral, não está interessado em ser Deus ou anjo para ninguém, como eram os seus colegas de antigamente. Dá muito trabalho,  exige muito sacrifício, por muito poucos seria apreciado.

                                                                                                      

                                                                                                       laurindo.barbosa@gmail.com

publicado por Fri-luso às 14:11

Laurentino Sabrosa
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