AUTORES

Junho 26 2016

SABER LER

 

Tive um amigo, com o antigo 7ºano do liceu, que lia mesmo muito. Comprava livros e mais livros e, quando faleceu, deixou uma boa biblioteca em quantidade e, vá lá, em qualidade.

No entanto, sempre me quis parecer que tinha um nível intelectual muito rasteiro. Instalado confortavelmente no seu emprego numa companhia de seguros, cristalizou a sua vida na rotina do serviço até à reforma, e estagnou a sua actividade intelectual em cinquenta por cento do que aprendeu no liceu e que a sua memória conseguiu reter até morrer.

Ler livros e mais livros parecia ser a segunda rotina para as horas em que estava sem preocupações de serviço. Nunca lhe notei uma elevação de conceitos e de opiniões haurida das suas leituras. Não escrevia nada, nunca falava deste ou daquele escritor ou poeta, que tinha esta ou aquela ideia com a qual concordava ou discordava.

Um dos livros que ele tinha na biblioteca que por morte legou, era o HAMLET, a célebre peça teatral de Shakespeare. Fui eu que lhe ofereci esse livro, por saber que ainda não o tinha e, muito secretamente, para analisar a sua reacção e aproveitamento da leitura. Três meses depois, perguntei-lhe se ele já tinha lido o livro. Disse-me que sim. Então, perguntei-lhe:

- E, então, que tal? Gostaste? É uma grande obra, não é ?

- Ora, o Hamlet era meio maluco…

Ler esta obra de Shakespeare, uma das principais deste grande dramaturgo e poeta, e concluir, apenas e erradamente, que Hamlet era meio ou totalmente maluco, é o que eu chamo NÃO SABER LER. Ser insensível às frases simultaneamente poéticas e filosóficas de Shakespeare, coisa para que muito poucos autores têm talento, sem apreciar ou não a poesia, sem estar de acordo ou não com a filosofia, acho que revela uma grande limitação da instrução e da cultura.  

Na verdade, o autor nesta sua obra expõe, talvez mais do em qualquer outra, os seus conceitos sobre a psicologia das pessoas e a sua filosofia da vida e da morte.

Começa por ter por tema o que é mais vulgar do que parece, ou seja, o secreto ambiente de perfídia, de traição e até de crimes entre as altas esferas da sociedade, mesmo daquela sociedade que devia ser um relicário de virtudes. Hamlet é figura ímpar de elevação moral e espiritual entre o lamaçal da corte de que era filho, e por isso muito teve de sofrer.

Muitos são os passos em que isso se evidencia, em que eu gostaria que o meu amigo tivesse reparado e quem sabe ler repara para seu proveito moral e espiritual. Apenas alguns:

Quando Horácio, um amigo de Hamlet, se mostra surpreendido perante coisas que não estava a compreender, Hamlet solta-lhe uma frase: Há mais coisas no Céu e na Terra do que sonha a tua filosofia. É um ensinamento que todos devemos ter sempre presente. Noutro ponto, quando Polónio, camareiro-mor, promete tratar um grupo de comediantes que protagonizou uma peça teatral no palácio, segundo o seu merecimento, Hamlet diz-lhe: Muito melhor! Trata-os segundo a tua honra e categoria e, assim, quanto menor for o merecimento deles, maior é a tua magnanimidade. É um convite a sermos magnânimos para todos, independentemente deles serem merecedores ou não. Aliás, é assim que Deus procede para connosco. Seriamos bem infelizes se Deus nos favorecesse só segundo os nossos méritos.

Com muito significado, quanto a mim, é uma conversa entre o rei, que já tinha assassinado o pai de Hamlet, e Laertes, filho do referido Polónio, na qual se propõe assassinar o próprio Hamlet, pela segunda vez, para dele se livrar. O plano consiste em provocar Hamlet para um duelo de esgrima com o tal Laertes, em que o florete que lhe vai ser entregue tem a ponta envenenada. E o rei, então, diz: Como ele é muito confiado, extremamente generoso e à margem de todo o ardil, não examinará os floretes e poderás escolher a arma que com uma estocada hábil será suficiente. Imagine-se! Os reconhecidamente bons sentimentos de uma pessoa, a serem usados para a sua própria perdição! Também isto sucede na vida real de muitas pessoas, mas raras vezes estamos precavidos.

Parece que SABER LER, para meditar e assimilar estas coisas para proveito moral e espiritual, não é tão fácil como parece. Será dom de Deus que nem a todos é concedido, até porque só será concedido não a quem conservar na sua formação apenas metade do que aprendeu na escola, mas, pelo contrário, ter a preocupação de saber mais do que na escola lhe ensinaram.

laurindo.barbosa@gmail.com

publicado por Fri-luso às 15:33

Laurentino Sabrosa
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