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Novembro 08 2014

PROBABILIDADES

Todos sabemos que se numa saca tivermos 6 bolas brancas e 6 bolas pretas, devidamente misturadas, a possibilidade de tirar à sorte uma bola branca é igual à de tirarmos uma bola preta. Ou melhor, como se dirá em linguagem matemática, a probabilidade de tirar uma bola branca é igual à probabilidade de tirar uma bola preta - em ambos os casos a probabilidade é, em termos numéricos, 6/12 , ou ½, ou ainda 50%.

Se, porém, no mesmo total de 12 bolas, houvesse apenas 3 bolas brancas, a probabilidade de sair uma bola branca já seria menor – seria 3/12, ou ¼ ou ainda 25%; a probabilidade de sair uma bola preta seria maior – seria 9/12, ou ¾ ou ainda 75%. Supondo agora que na referida saca havia 12 bolas todas brancas, qual a probabilidade de sair uma bola branca? É evidente que aqui não há propriamente probabilidade mas sim certeza, porque se todas as bolas são brancas não poderá sair nenhuma de outra cor. Porém, ainda assim, em termos de matemática, podemos estabelecer valores numéricos: 12/12=1 ou 100%. Assim, em matemática, a probabilidade igual à unidade, de que ocorra qualquer evento, corresponde à certeza de que esse evento vai mesmo ocorrer.

E podemos mesmo perguntar: qual a probabilidade de sair uma bola preta? É evidente que também aqui não há propriamente probabilidade de sair uma bola preta, porque se todas as bolas são brancas é impossível que saia uma bola preta. Porém, ainda assim, podemos estabelecer valores numéricos 0/12=0. Assim, a probabilidade igual a zero, corresponde à impossibilidade. Quando há a certeza da realização de qualquer evento ou a certeza da impossibilidade de realização, o evento deixa de ser facto aleatório.

Assentamos toda a nossa vida nas probabilidades, mesmo sem darmos por isso. A lotaria, o totoloto, os seguros de vida ou do automóvel, baseiam-se em probabilidades. Qual de nós quando sai de casa para o trabalho, tem a certeza absoluta de que regressa são e salvo? De repente, um acidente qualquer pode levar-nos para o hospital. Um néscio, pensando com ligeireza e manobrando dados com falsa perícia, consegue ter sempre probabilidades iguais a 1 – tudo seguro, tudo certezas; o suicida é aquele que, deitando contas à vida mas errando os cálculos, achou probabilidade igual a zero.

Diz-se por vezes que devemos fazer da nossa vida uma aventura. Sem dúvida, mas primeiro é preciso aprender a lançar dados e a fazer contas. A vida, em geral, sem uma certa dose de imprevistos e de risco, sem probabilidades, seria monótona e insípida. Mas há algumas certezas que devemos ter – temos de ter a certeza de que nada sabemos e que a esta nossa “ignorância” andam copuladas a vaidade e a maldade; temos de ter a certeza de que Deus existe, só pelo simples facto de nós existirmos e n’Ele podermos pensar; e temos de ter a certeza da nossa Salvação. De facto, sem esta certeza não pode haver felicidade, mesmo naquele grau que é pensável e lícito desejar. Especialmente aqueles que não acreditam que na “morte a vida não acaba mas apenas se transforma”, de vez em quando encaram o seu destino eterno com uma certa angústia.

Este assunto não dever ser deixado ao sabor das probabilidades, como se fossemos um toureiro que na arena “tanta e tanta vez, sem temer uma colhida, arrisca a vida com altivez”. A Salvação não é um facto fortuito, aleatório, dom ou benesse que nos é oferecida mas a que somos alheios. A certeza da Salvação é uma realidade espiritual para a qual temos de colaborar conscientemente. É uma espécie de pólipo ou tumor exógeno, visível, que podemos apalpar sem dor ou ansiedade, cujas raízes se vão alimentar nos méritos de Cristo, mas cujo bolbo fibrinoso é um emaranhado da nossa fé, das nossas obras e do nosso amor.

O toureiro quando vai para a lide não pode ter a certeza de que sai incólume dela; no que respeite à Salvação, devemos ter a certeza que o toureiro não tem. Para conseguirmos a felicidade presente e futura, terreste e eterna, podemos de facto fazer desta vida uma grande aventura, desde que não belisquemos a certeza da Salvação. Uma das condições necessárias é não dazer desta vida uma tourada.

laurindo.barbosa@gmail.com

publicado por Fri-luso às 18:02

Laurentino Sabrosa
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