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Julho 14 2014

MITOLOGIA E HOMOSSEXUALIDADE

 

A mitologia greco-romana é uma coisa maravilhosa, não pelo que tem de fantasmagórico, mas pelo que tem de profundidade espiritual. Pelo que se pode deduzir, os povos antigos eram profundamente religiosos, acreditavam em seres supremos a quem era preciso venerar, pois podiam dispor do seu futuro e da sua felicidade. O homem, perante o enigma do Universo e perante o enigma que ele próprio sentia ser, lançou-se a conjecturar engenhosamente, às vezes poeticamente, explicações da vida e da morte, da boa e da má sorte, das guerras e dos ódios, dos seus vícios e das suas virtudes, dos seus amores e dos seus temores, criando personagens, deuses, semideuses, heróis, com características humanas.

Em qualquer mitologia, sejam a clássica dos antigos gregos ou as dos povos orientais e escandinavos, há símbolos das angústias humanas, uma tentativa de explicação da origem das coisas e do fundamento dos sentimentos, o desejo de imortalidade de toda a humanidade, a sua impotência para superar a dor e a morte. Os gregos conceberam um deus supremo, o grande Zeus, pai e chefe de todos os deuses, que, coitado dele, se tivesse existido, teria sido um ínfimo anão e um mísero palhaço, se comparado com o Deus que mais tarde veio a ser proclamado por Jesus Cristo; arquitectaram  uma mansão vasta, talvez feérica, para morada de Zeus e dos deuses seus acólitos, a que chamaram Olimpo, morada que seria divinal, mas não divina, porque divina só aquela morada que é a do Deus que não tem deuses acólitos ou subalternos.

A trindade egípcia, Osíris, Isis e Hórus procurava explicar com alguma beleza e poesia a sucessão dos dias e das noites, mas não será inconsequente vermos nessa trindade a propensão da humanidade para um deus em três pessoas, de alguma maneira a aproximar-se da Trindade proclamada por Jesus Cristo; o mito de Prometeu, na sua complexidade, é extraordinariamente rico em simbologia e significado: foi um titã muito diferente de todos os outros que usou mais a inteligência que a força a favor da humanidade – atribuiu-se-lhe a criação do género humano, a sua posterior salvação do dilúvio, deu-lhe a noção de Tempo, ensinou-lhe a navegação, a medicina e outras coisas e, coisa inaudita que o grande Zeus, o Pai dos deuses, não tolerou, roubou o fogo aos céus para o entregar aos homens para seu grande benefício. Foi expulso do Olimpo, duramente castigado pelas suas ousadias, mas mais tarde foi readmitido ao seio dos outros deuses.

Ora, podemos ver neste Prometeu o impulso da tendência humana, embora inconsciente, a dirigir-se para a figura de Cristo: aproximadamente como Cristo, Ptolomeu foi alguém que amava a humanidade e por isso muito teve de sofrer, um decaído que expiou a sua culpa, com angústias que eram devoradas por novas angústias, uma recondução à felicidade celeste. Em teoria, Zeus poderia ter anulado todos os benefícios que Prometeu concedera à humanidade, mas não o fez, tal como sucedeu com Cristo, que tendo passado a fazer o bem, fez um bem que permanece para sempre.

Parece que num desejo de explicar a vida, justificar sentimentos, desculpar-se dos seus vícios e defeitos, a humanidade criou deuses para tudo, atribuindo-lhes os seus próprios defeitos e para ter símbolos de tudo que é humano. Assim, Jano, o deus romano de duas faces, bem pode ser o símbolo da duplicidade ou hipocrisia humana; Fortuna, que era simultaneamente deusa da felicidade e da desgraça, bem pode ser o símbolo da inconstância e da imprevisibilidade que sentimos na nossa vida; Cronos, deus do Tempo, que devorava os seus próprios filhos, bem pode ser o símbolo do que o tempo tem de implacável e inexorável, que, conforme agora dizemos, “tudo cura e tudo resolve”; Mercúrio era o deus do comércio e do lucro, e se calhar, dos ladrões por essa via; Vénus e Cupido eram símbolos do amor, cada qual à sua maneira –  enfim, há uma enormíssima variedade de deuses de várias categorias para atender os desejos e intenções de todos os mortais. A religiosidade dos gregos era de tal ordem, que eles, apesar de já terem uma legião imensa de deuses para lhes valer nos seus anseios e nos seus receios, chegaram a recear que houvesse um deus que não estivesse a ser honrado, e, para colmatar essa falha, começaram a prestar também culto “ao deus desconhecido”. Coube ao Apóstolo São Paulo, pregar aos atenienses que aquele deus, para eles desconhecido, era exactamente Deus, o único deus verdadeiro.

Enquanto os gregos não abjuraram da sua religião politeísta, tudo era uma cacofonia imensa, histórias e episódios quase sempre sem lógica, porque rocambolescos em que havia de tudo: traições, assédios, violações, estupros, raptos, incestos, roubos, valentias, amores, etc. etc., mesmo tudo. Fernando Pessoa tem um paradoxo notável de grande valor filosófico: o mito é o nada que é tudo. Cada realidade parece fazer parte de uma árvore genealógica cuja raiz é o mito.

No entanto, há pelo menos uma coisa que eu não encontrei na mitologia, pelo que, não tendo como raiz o mito, não devia existir como realidade: a homossexualidade. Sendo um vício da humanidade antiquíssimo, possivelmente tão antigo como a própria humanidade, parece estranho que na mitologia não haja um deus que fosse homossexual, para de certa maneira haver uma grande desculpa para todos aqueles que ao longo dos séculos o têm sido. O exemplo mais antigo de homossexualismo, fora da mitologia, é a poetisa Safo, acusada de vida privada devassa, apesar de ser talvez a maior poetisa da literatura grega. Como era natural da ilha Lesbos, as mulheres como ela passaram a ser lésbicas. Apesar disso, a homossexualidade esteve fora da capacidade de imaginação dos pagãos e não sentiram necessidade do auxílio de nenhuma divindade contra ela. Em matéria de heterossexualidade, toda a mitologia é um manancial inesgotável. Nenhum deus deixou de a praticar, e Zeus deve ter sido o campeão a dar o exemplo! Os íncubos, pequenos demónios masculinos, atacavam as mulheres durante o sono a quererem ter relações sexuais com elas; os súcubos, uns pequenos demónios femininos, atacavam os homens durante o sono a quererem relações sexuais com eles – nada de homossexualidade!

Os cientistas de agora dizem-nos que a homossexualidade em muitas pessoas é coisa inevitável, por ser de origem genética, hormonal, hereditária, etc. Não sou eu que vou desmenti-los, mas vem a talho de foice mais algumas considerações.

Um homossexual que o seja por imperativo da sua natureza, não é culpado, não é por isso que deixa de ser um justo aos olhos de Deus. Ora, segundo a história bíblica, que para os cristãos não deve ser uma simples história, nas cidades de Sodoma e Gomorra viviam muitos homens de vida escandalosa, descaradamente homossexual, por causa do que Deus resolveu destruir as cidades e os seus habitantes por uma chuva de fogo e enxofre, castigo cruel que seria merecido, perante a gravidade do que era feito. No entanto, Abraão, querendo mover a piedade de Deus, tentou demovê-Lo e conseguiu a promessa de que as cidades seriam poupadas, se entre todos os habitantes fossem encontrados dez justos. Como não havia dez justos entre todos, as cidades foram destruídas. Parece que se pode concluir que entre todos aqueles homossexuais, que queriam abusar de três homens/anjos que tinham ido visitar Abraão e estavam a pernoitar em sua casa (Gen 18 e 19), nenhum deles era homossexual sem culpa, por motivos hereditários ou biológicos. Este episódio é una condenação indirecta da homossexualidade.

Por outro lado, também é de estranhar que São Paulo fosse tão severo nas suas Epístolas contra os homossexuais, e não fosse inspirado por Deus para os desculpar, prevendo os casos dos justos  que são vítimas do que não querem.

Cristo avisou-nos: a ciência se multiplicará, e eu espero que a descoberta da justificação da homossexualidade em algumas pessoas, seja de facto um avanço da verdadeira ciência. Será escandaloso que algum cientista se queira aproveitar desta palavra de Cristo para apresentar a descoberta da justificação da homossexualidade como evolução da ciência, fazendo do que Cristo disse beneplácito para apresentar como ciência aquilo que convém.

Nota – O autor julga ter um conhecimento da Mitologia suficiente para, com acerto, falar como falou. No entanto, a Mitologia é tão vasta e complexa que tem de admitir que possa estar enganado, e haja alguma deidade pagã que no imaginário greco-romano tenha sido patrono ou praticante da homossexualidade. Se for esse o caso, agradeço me complete com nomes, episódios, etc., numa cordial colaboração. Obrigado.

laurindo.barbosa@gmail.com

publicado por Fri-luso às 21:06

Laurentino Sabrosa
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