AUTORES

Abril 30 2014

 

 

DIA DA MÃE

 

Todas as mães, salvo raríssimas excepções, são um monumento de amor e ternura para os seus filhos. Toda a mulher que se sente em esperanças de entregar ao mundo um filho, passa a ter simultaneamente momentos de alegria e sentimentos de apreensão. É a alegria de ver o prolongamento de si própria, osso dos seus ossos e carne da sua carne, é o receio do que lhe possa suceder na sua hora e do que possa suceder contra a harmonia e felicidade do seu filho. Começa desde logo a abençoa-lo com amor, falando-lhe como se ele fosse já bebé ao seu colo. E fica toda feliz quando ele parece corresponder-lhe, saltando de alegria no seu seio.

Ultrapassado o transe do nascimento, de tudo se esquece. Embevecida com a vida, entrega-se ao seu filho como se ele fosse um deus, e quase lhe presta culto como só a Deus é devido: com toda a força do entendimento, como toda a energia da vontade e com toda a ternura do coração.

O filho, até à juventude, agradece e corresponde, quase quase inteiramente, ao quanto os pais fazem por ele. Mas depois… oh! depois…é os estudos e os desportos, os sonhos de grandeza e a ambição de dinheiro, a satisfação do sexo e  as estúrdias com os amigos! A partir daí, quão pouco repara nos pais, no sacrifício heroico que eles fazem, às vezes mais pela Mãe, para manter o conforto e a estabilidade da vida, para lhe afastar dificuldades e traumas no seu desenvolvimento de adulto: é o pai que se sacrifica a trabalhar mais para auferir uns extras, tentando que nada falte, sobretudo aos filhos; é a Mãe que sofre e reza em silêncio quando eles estão em situações difíceis ou lhe parece que andam transviados, quando vão fazer um exame ou uma viagem mais longa.

Os filhos só depois, às vezes tarde de mais, é que com saudade e pena rememoram a vida, se lembram de indícios de que os pais, talvez mais a Mãe, foram excelsos nos seus sentimentos e exímios nas suas actividades.

Quem escreve estas linhas, não se pode vangloriar de ter fugido completamente a esta regra. Não apreciei a Mãe que tive, mesmo quando de certa vez eu, na minha vida profissional, pela primeira vez me ausentei de casa por quinze dias, e, na hora do regresso, ela me deu um abraço ao mesmo tempo tão triste e tão alegre, tão convulso e tão estremecido que se me gravou na memória; também não apreciei o pai que tive quando nessa mesma época, eu, ausente de casa e absorvido pelo trabalho, não escrevi nada aos pais a dar notícias durante umas três semanas: soube depois que ele a partir de certa altura esperava dia-a-dia apreensivamente carta do correio e andava de ânimo perturbado – nem mesmo quando um dia me disse que tinha tratado bem o seu pai, mas…”hoje teria sido ainda melhor”. Eu digo o mesmo: sempre tratei bem os meus pais, mas não com a atenção, desvelo e carinho que hoje lhes daria.

Quem escreve estas linhas, ficou muito doente aos 26 anos, doença que se mostrou rebelde a tratamentos e se prolongou por aproximadamente vinte anos, roubando mais de vinte quilos de peso. Hoje estou completa e milagrosamente curado dessa doença e com uma longevidade impensável nos dias do sofrimento. A que se deveu o milagre? Relembrando pormenores sobre a vida familiar, e sabendo o suficiente sobre pessoa e espírito de minha Mãe, eu agora sei o quanto ela deve ter sofrido com a minha doença, o quanto ela pediu a Deus e à Virgem para me afastar da morte. Todas as mães são assim, em procedimentos adaptados às circunstâncias. Ela nunca me falou das suas aflições, sofrimento em carne viva, a respeito da minha doença, mas não me é difícil adivinhar que foram as suas orações que me fizeram recuperar milagrosamente a saúde, concedendo-lhe na minha pessoa talvez mais do que tinha pedido.

“Filhos, vós não pagais, nem que de rastos vos visse, um beijo dos vossos pais” – diz o poeta, mas não é verdade. Nós, os filhos, podemos pagar o que devemos aos pais se os venerarmos e honrarmos, sobretudo na pessoa da nossa Mãe, evitando, porém as promoções calendarizadas.

Será bom que patenteemos em vida aquilo que sentimos e que lhe é bem merecido. Na verdade, ela poderá dizer, e muito secretamente estará a pensar e a desejar:

         

 Agora que estou viva, quero mais beijos e abraços que muitas flores depois de morta;

 Prefiro que me apertes agora as mãos e me sorrias, a que te debruces sobre mim e chores

 muito na hora do funeral e mesmo depois;   

 Prefiro que converses comigo, me chames e fales com ternura agora que estou viva, a que te   

 lamentes dolorosamente depois de eu morrer, por não o teres feito enquanto era tempo.

 

Por isso, a melhor maneira de comemorar o DIA DA MÃE, é, para além de vários mimos e carinhos em jubilosa ternura, pedir-lhe perdão pelas indiferenças, teimosias, desrespeitos ou desamores que tivemos; ou, se ela já está nos domínios do Além, dedicarmos-lhe com pungente saudade algumas orações de sufrágio – até porque ela continua a zelar por nós –  para nos redimirmos dos nossos pecados contra os nossos pais, sem esquecer os de omissão.

 

                                                          laurindo.barbosa@gmail.com  

 

 

publicado por Fri-luso às 13:48

Laurentino Sabrosa
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