AUTORES

Fevereiro 03 2014

COMENTÁRIO A UM SONETO

 

Quem percorre os sonetos de Florbela Espanca, nota que o espírito da poetisa era altamente insatisfeito, anelando filosoficamente ou misticamente o Além, buscando com avidez a Felicidade e o Amor. A tristeza, a nostalgia, a angústia, a sede de amar e de ser amada são sentimentos que povoam a mente da poetisa, fazendo-lhe produzir os mais belos sonetos, alguns deles verdadeiras obras-primas.

Como em qualquer poeta que exprime mágoas e queixas nas suas endechas, em Florbela Espanca podemos notar muito de auto-compaixão. Há, porém, pelo menos um soneto que foge a esta regra, porque é, por assim dizer, o menos romântico de todos. Contém muito de bom senso e de realidade, não lhe faltando, todavia, inspiração e rasgo poético. É um soneto dedicado A UMA RAPARIGA, e assim mesmo intitulado. Começa a autora:

 

                              Abre os olhos e encara a vida! A sina

                              tem de cumprir-se! Alarga os horizontes!

                              por sobre lamaçais alteia pontes

                              com tuas mãos preciosas de menina.

 

Eis uma verdadeira ária de saudação à Vida, em que há um convite para a encarar sem temores e com largos horizontes. Só alargamos a nossa simpatia e desenvolvemos a inteligência se conseguirmos sair dum restricto círculo de tibieza e de mediocridade. Mas esse alargar de horizontes exige um esforço de atenção e de trabalho para “abrir os olhos” e  “altear pontes”, superando, então, as condições adversas dos lamaçais.

A poetisa continua com os seus conselhos sensatos e positivos:

                             

                              Nessa estrada da vida que fascina,

                              caminha sempre em frente, passa além dos montes.

                              morde os frutos a rir! Bebe nas fontes,

                              beija aqueles que a sorte te destina.

 

Há aqui um saudável optimismo: caminhemos sempre em frente de atitude vitoriosa e sem descanso, sabendo colher o que de bom a vida nos oferece, e aceitando sem ressaibos o que de mau a vida nos proporciona. “Beija aqueles que a sorte te destina”- é uma maneira poética e harmoniosa de dizer “os espinhos magoam menos quando se beijam que quando se pisam”. Até aqui, há um estilo suave de palavras tranquilas. Mas eis que irrompe o estilo grandíloquo e imponente de Florbela logo a seguir, no primeiro terceto:

 

                              Trata por tu a mais longínqua estrela!

                              Escava com as mãos a própria cova

                              E depois, a sorrir, seguir deita-te nela!

 

Logo no primeiro verso, há uma frase impressionante que vale um tratado de filosofia e um poema de amor. É uma poética maneira de dizer “harmoniza-te com o Universo no mais elevado grau e o mais perfeitamente possível”. Na verdade, só depois de conseguida essa harmonia, se pode ser verdadeiramente feliz, porque só então se pode compreender e amar a grandeza desse Universo, sentir com alegria que desse Universo fazemos parte e da sua grandeza usufruímos, mesmo para além daquilo a que chamamos morte. É ainda um incentivo para, num poema de amor e de alegria, sermos um átomo dessa grandeza, amando Deus e as suas criaturas, sejam pessoas ou sejam pedras, sejam estrelas do céu ou estrelas do mar.

Para conseguirmos essa grande harmonia, já não basta “abrir os olhos” e “altear pontes”, é preciso “escavar com as mãos a própria cova”, isto é, construirmos o nosso próprio destino, numa luta constante pela perfeição. Para caminhar “nessa estrada da vida que fascina”, o homem superior não pode acreditar no Acaso nem no bafo da Sorte – faz depender o seu êxito na sua capacidade de amar e de se sintonizar com o Universo e, por isso e para isso, trabalha, luta, reza, estuda, porfia. Assim, acaba por entesourar valores com que, um dia, vai forrar a sua alcofa tumular – e depois, a sorrir, deita-se nela. Vem a seguir o último terceto.   

Vem a seguir o último terceto, onde se nota uma suavidade pouco vulgar no estilo florbeliano:

 

                                Que as mãos da terra façam com amor

                                da graça do teu corpo, esguia e nova,

                                surgir à luz a haste de uma flor!...

 

Este soneto, creio que ponto único em toda a obra de F. Espanca, é verdadeiramente espiritual, mas também útil para uma conduta de vida e formação de pensamento.

laurindo.barbosa@gmail.com

publicado por Fri-luso às 20:17

Laurentino Sabrosa
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