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Janeiro 25 2015

CANTIGAS PROFANAS E CANçÕES RELIGIOSAS

 

Há muitos anos, havia por aqui na zona em que sempre vivi, uma canção popular em que se cantava:

 

Acabou-se, acabou-se,acabou-se,

Acabou-se a minha alegria.

Tenho pai, tenho mãe, tenho tudo,

Só me falta o amor da Maria.

 

Vemos facilmente que se trata de uma canção de sentimentos tristes. No entanto, quem como eu se lembrar desta canção, sabe que era cantada em música muito alegre, mesmo festiva. A canção, como lhe chamei, passou a ser uma vulgar cantiga, sem “seriedade” e valor poético, por não haver consonância entre a letra e a música.

Também me lembro de que em certo Festival da Canção, com a habitual participação de Portugal, através da RTP, uma das canções apresentadas, desta vez por um dos países nórdicos, enfermava do mesmo defeito, se é que isso é defeito. Foi o nosso apresentador do espectáculo que nos explicou que a referida canção, cantada na língua deles, era de letra extraordinariamente triste, mas de música muito alegre e vivaz. Foi coisa de tal maneira estranha e notória que ele se sentiu na obrigação de a ela se referir, como informação e curiosidade. Uma cantiga ou canção profana, em que tal discrepância sucede, perde valor sentimental, mais ainda do que seria se fosse de letra alegre mas cantada em toada de tristeza. Passa a ser uma fantasia sem nexo, sem lógica, pelo que apenas responsabiliza, quando muito, quem compôs a música nada de acordo com a letra.

 

Que se passa se se tratar de um cântico religioso? Em geral, nos cânticos religiosos não há discrepâncias entre o significado dos termos e o tom musical. Os cânticos religiosos, letra e música, em maior ou menor grau, são manifestações de alegria, mas não podem ser cantados com a ligeireza que muitas vezes se observa nas cantigas populares e profanas. Um cântico religioso é mais ou menos directamente uma oração. Consideremos a seguinte quadra:

 

Humilde culto vos prestamos

Do nosso afecto em terno ardor.

A vossos pés vos consagramos

Virgem celeste o nosso amor.

 

Seja qual for a música, esta quadra é uma oração, e se for cantada por quem não ama a Virgem, passa a ser na sua boca uma fantasia ou, mesmo, uma hipocrisia. Vejamos ainda:

 

Como posso ser feliz

Se ao pobre meu irmão,

eu não ouço o que ele diz

e lhe fecho o coração ?

 

É uma pergunta que deve ter uma resposta silenciosa mas óbvia da parte de quem se abalançar a cantá-la: quando eu encontrar alguém carenciado, vou prestar-lhe atenção e auxiliá-lo no que puder, pois de outra maneira não tenho direito à felicidade. Se alguém cantar isto por cantar, não fazendo corresponder a acção pessoal com a letra do que cantou, tudo fica degenerado e, porventura, pode mesmo dar um péssimo testemunho de vida.

Uma canção ou cantiga popular pode ser, e às vezes é mesmo, uma diversão ou uma falácia. Um cântico religioso, não. Um cântico religioso é sério e responsabilizante.

                                        

                                                             laurindo.barbos@gmail.com

 

publicado por Fri-luso às 09:40

Laurentino Sabrosa
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