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Janeiro 23 2015

ALGUMAS DIVAGAÇÕES SOBRE

A  MATEMÁTICA

 

Nas conversas entre amigos e colegas, de vez em quando vêm à baila assuntos linguísticos, como, por exemplo, as designações dos habitantes dos países e das várias localidades. Uma coisa interessante e prática é organizar duas listas por ordem alfabética: uma, de países e localidades, indicando-se a designação dos respectivos habitantes; outra, de habitantes, com a indicação dos países e localidades que lhes correspondem.

Mas… que tem isso a ver com a Matemática? Se o leitor se agarrar às listas na sua frieza e utilidade, de facto dificilmente descobrirá qualquer vínculo. Porém, se o leitor considerar que as listas são a formação dos gentílicos a partir dos topónimos, a relação com a Matemática já não é assim tão distante, pois é uma parte da Gramática, e devemos considerar a Gramática como a Matemática da Linguagem. É a sua disciplina, o seu rigor para que todos nos possamos entender com correcção e beleza. Fala-se muitas vezes na linguagem dos números. Os números 7 e 40 são muitas vezes referidos na Bíblia, com grande significado e simbolismo. Por outro lado, a linguagem torna-se mais clara e expressiva se for expressa em termos matemáticos. Assim o considerou o Papa João XXIII, quando reduziu a Paz a uma simples fórmula matemática:

 

PAZ = VERDADE + JUSTIÇA + LIBERDADE + AMOR

 

Acho curioso notar que a Matemática, sendo, por assim dizer, uma Ciência-gigante que a todas as outras abraça, tem um vocabulário técnico reduzido, ou assim podemos considerar, por esse vocabulário estar de tal maneira inserido na nossa linguagem diária que mal damos por isso. Todos nós falamos de linhas paralelas, quadrados e cubos mágicos, simetrias e assimetrias, gramas de assucar e outros ingredientes para uma boa culinária, círculos, circunferências e tangentes, etc., etc. São-nos familiares os triângulos, os números pares e os números ímpares, e, se o engenheiro e o arquitecto muito precisam da Matemática, o pedreiro e o carpinteiro também.

Podemos classificar de matemático o que obedece a uma norma ou lógica. Os gentílicos de que acima se falou, mesmo os mais irregulares em relação aos topónimos, não foram formados por capricho dos deuses. A própria linguagem de Deus tem, por vezes, algo de matemático: perdoa não sete vezes mas setenta vezes sete, isto para dizer que devemos perdoar sempre. Platão exclamou: abençoa--nos divino número. Mal ele sabia, apesar de tão sábio, quanto, muitos séculos depois, o homem viria a depender desse “ser”, quanto viveria sob o seu império e sob o seu fascínio. Já desde há muito, só o homem “numerado” partilha do progresso e da civilização. Todos temos muitos números: bilhete de identidade, fiscal de contribuinte, de eleitor, de sócio desta ou daquela colectividade, da porta da rua, do telefone, de beneficiários da Previdência, de depositantes num Banco, de doentes num hospital ou de presidiários na cadeia se lá estivermos, número de horas de trabalho, de dias de férias, etc. , etc.

Somos, por assim dizer, escravos do número. Escravatura dolorosa? Se o número tem essência divina como acreditava Platão, então o seu jugo deve ser suave, auxiliador, que até se harmoniza com Deus. Quem vive sem conta, vive sem honra, o que quer dizer que para cumprirmos a lei de Deus, temos de nos subordinar ao número, para deitarmos contas à vida e vivermos matematicamente, com conta, peso e medida. Todos os números são nossos amigos. Alguns, segundo parece, têm tanto empenho em o mostrar, que nós acabamos por considerá-los da família, chamando-lhes números primos… Outros, para nos dar o exemplo, num esforço paternal e educativo, quiseram ser chamados números perfeitos… Que é um número perfeito? Nos compêndios de Matemática, encontra-se uma definição que não cabe aqui ser transcrita. Mas na minha Matemática transcendental, sem ser transcendente, existe um teorema dos números perfeitos, aplicável aos seres humanos e só a eles, que reza assim:

É condição necessária e suficiente para se ser número perfeito,

1º.ser caso notável da multiplicação

2º.não ser conjunto vazio

 

A demonstração deste teorema, nada fácil, fica a cargo do leitor. Quanto melhor fizer essa demonstração, melhores são os frutos que, em prazo mais ou menos longo, disso colherá.

 

Na criação do Mundo, do Cosmos, Deus parece ter usado da maneira mais perfeita a Matemática. As leis que regulam a gravidade, o movimento dos astros, a velocidade do som e da luz, são algumas realizações da mais excelsa Matemática, criada por Deus, numa espantosa harmonia, uma Mecânica Celeste que por ter sido criada por Deus é também celestial. Mediante o dom da inteligência que foi concedido ao Homem, foi possível devassar muito da Matemática de Deus, e usar dessa Matemática para fazer circular comboios, voar aviões, flutuar paquetes, prever eclipses, criar a informática, etc. etc.

É bom que se saiba que a Matemática é muito mais que números, equações, inequações, problemas de engenharia, de idades ou de velocidades mais ou menos difíceis. O cultivo da Matemática proporciona em toda a vida pessoal agudeza de raciocínio, vivacidade de espírito, agilidade de dedução e atenção para as chamadas “perguntas de algibeira”. Pascal, um dos grandes matemáticos, diz mesmo que a Matemática dá a quem a cultiva um sentimento especial. Podemos cultivar, assim, a Matemática para nosso proveito moral e espiritual. Como sabemos, a Matemática pode elaborar muitos gráficos em que se analisa: a produção industrial, o consumo de produtos agrícolas, as exportações, importações e a natalidade num país, e, além de muitos outros, a gravidade dos terramotos. Pascal não deixa de ter razão, e, então, o cultivo da Matemática nos dará uma vida equilibrada e serena, vivendo com conta, peso e medida, uma vida em que tentamos ser número perfeito, uma vida cujo gráfico nunca será equiparado a um gráfico de terramoto.

laurindo.barbosa@gmail.com

publicado por Fri-luso às 09:34

Laurentino Sabrosa
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