AUTORES

Abril 13 2012

 

  

ATÉ QUANDO, ATÉ QUANDO?

 

Um LAR ou qualquer instituição que tenha funções hospitalares ou de assistência a idosos, é como um grande bote puxado à sirga, com uma grande despensa de sofrimento onde todos se aprovisionam. Mesmo quem o puxa, não está isento da necessidade de ir à despensa buscar a sua dose. Há muito quem não saiba o como, o quando e o porquê de nada, não sabe localizar-se no tempo e no espaço, não sabe do quarto onde dorme, olha para a televisão mas não vê televisão, vive muito mais por instinto que por inteligência, e os que menos sofrem são os que andam de bengala, fazendo dela um fio de terra por onde se escapulem grande parte das suas dores.

Aqui, onde estou hospedado vitaliciamente, onde eu e poucos mais somos “membros honorários”, por sermos  “reis em terra de cegos”, há uma mulher que é das que menos sofre, de nome Albertina, mas que em certos aspectos é uma pessoa inferior. Embora não seja deficiente nas faculdades motoras, está muito depauperada na agilidade mental e nas capacidades intelectuais. Não sabe ler, não sabe andar só, mesmo dentro de portas, tem medo de andar no elevador. Ontem, encontrei esta mulher a dar a outra uma espécie de gaze, uma coisa que nunca vi, para resguardar um ferimento, aliás sem gravidade. Passou uma enfermeira, que também viu a cena e, como eu, ficou admirada da tal gaze ou lá o que era. A enfermeira elogiou-a por aquilo que estava a fazer, porque de facto era muito apropriado, e então, a Albertina disse, com um certo ar compungido: oh! eu não gosto de ver ninguém sofrer!

 Fiquei a pensar: também eu não gosto de ver ninguém sofrer, farei mesmo o que puder para o evitar. Mas os sentimentos desta mulher devem ser perante Deus muito superiores aos meus, porque ela é uma pessoa “deficiente” e eu sou uma pessoa “eficiente”. Ela não tem, como eu, a responsabilidade de quem sabe. Como seriam os meus sentimentos se eu fosse como ela e tivesse o mesmo nível cultural e de instrução? A Bíblia diz que um simples copo de água dado, não fica sem recompensa. Eu, que li a Bíblia, procuro, então, dar um pouco mais – procuro dar um copo de leite. Mas ela nunca leu a Bíblia. Como seria eu se não tivesse lido a Bìblia? Sem as virtudes que a Bíblia faz despertar, eu receio que seria como muitos são: diminuto de sentimentos e obtuso de espírito. Talvez não me importasse de ver os outros sofrer.

É impressionante ver, mesmo em quem presumivelmente leu a Bíblia, a indiferença perante o sofrimento dos outros e as injustiças que existem neste mundo. Quando eu vejo essas injustiças, que a vida deste mundo em sociedade mal consegue dirimir, apesar do esforço de muitos nesse sentido; porque sei que há quem aufere mais num mês que muitos outros, que trabalharam toda a vida, num ano – eu sinto-me confrangido e até revoltado, e, perante a minha incapacidade de remediar, ouço-me a dizer: Até quando, Senhor, vais tolerar essa injustiça? Concede a toda gente o conforto da minha cama, a segurança do meu tecto, a abundância da minha mesa e o consolo dos meus banhos. Eu sei, meu Deus, que isso é impossível na ordem social económica que temos, e até segundo a Tua Providência, parece pouco viável, porque seria aproximar demasiado o Céu da terra. Mas, meu Deus, eu não posso deixar de desejar desde já uma coisa dessas. Até quando, Senhor, vais tolerar a injustiça de uns terem tudo e outros não terem nada? Porque, meu Deus, eu não fiz nada de especial para merecer aquilo que tenho, e outros, por terem mais fé, mais ardor, mais energias e iniciativas, merecem ter aquilo que eu tenho e eles não. E não é preciso ir muito longe, não é preciso ir aos teus santos ou doutores, para encontrares quem me seja superior – olha! Talvez essa Albertina, tão ignara e simplória, valha a teus olhos mais do que eu, e não tem o que de bom eu tenho, o que é uma coisa sumamente contrária ao conceito de justiça que Tu próprio implantaste no nosso sentimento!

Na Literatura e na História ficaram célebres as catilinárias, discursos de Cícero contra Catilina, verdadeiras diatribes em que lhe censurava a sua traição contra a República. Talvez que o mais célebre seja logo o primeiro, em que Cícero o increpa violentamente, começando por lhe dizer: Até quando, Catilina, abusarás da nossa paciência? Este “até quando” é uma manifestação de indignação. Mas, muitas vezes, esta interrogação assume a característica de impaciência ou de ansiedade. Quem lê os Salmos, encontra-a várias vezes.

No salmo 4,3, lê-se: Homens, até quando desprezareis a minha glória? – uma interpelação do próprio Deus, onde o “até quando” é mais um aviso que uma manifestação de tristeza.  O salmo 13, apesar de muito curto, tem nada menos que quatro dessas interrogações, em manifestações de sofrimento pela privação das benesses de Deus:

               Até quando, Senhor? Esqueceste-me para sempre? Até quando me esconderás a Tua face?

               Até quando terei a minha alma em cuidados todo o dia? Até quando triunfará o meu inimigo sobre mim?

  Continuando a busca, encontramos o salmo 62 (61) em que David, fortemente acometido pelos seus inimigos, manifesta a Deus a sua confiança. Porque Ele é o seu rochedo e o seu refúgio, ousa provocar esses seus inimigos, perguntando-lhes directamente: Até quando atacareis um homem, todos vós, com o intuito de o matar? Os tais inimigos de David nem tiveram tempo de responder, porque logo a seguir, ele diz-lhes: Deus é a minha salvação e a minha glória. Assim, aquela pergunta é um altivo e seguro desafio, que contém uma grande e solene resposta: Jamais o conseguireis.

Algumas mais perguntas de até quando podem ser encontradas. Por exemplo, no salmo 82 (81), temos: Até quando julgareis injustamente e favoreceis a causa dos ímpios?, uma expressão que encerra muito de decepção, pesar ou angústia.

Também eu nos meus pensamentos e nas minhas orações, me dirijo muitas vezes a Deus, perguntando-Lhe até quando, até quando? À semelhança de Asaf, eu pergunto : Até quando, meu Deus, vais continuar a consolar o rico e a sacrificar o pobre? E as minhas perguntas deste teor multiplicam-se  indefinidamente: Até quando vou beneficiar desta minha bulimia de viver, bulimia que por vezes esmorece e degenera em anorexia? Até quando me concederás o prazer de usufruir dos bens que Tu me legaste por intermédio dos meus pais, ou que os meus pais me legaram com a Tua ajuda? Não é propriamente um apreensivo grito de alma, é o reconhecimento de que estou a usufruir de bens e benesses que não podem durar sempre.

Perante as convulsões sociais e as crises económicas; perante as inclemências da Natureza; quando eu vejo o sofrimento difundido no mundo pelos ódios e maldades dos homens –  apetece-me clamar:

               Até quando, Senhor, teremos de esperar pelo som das trombetas que precede os teus passos, a vir em manifestação gloriosa instaurar definitivamente o Teu reino? Vem, Senhor Jesus, remediar todas as injustiças e todas as pobrezas para que ninguém tenha necessidade de Te perguntar, nem por cólera, nem por impaciência, nem por angústia,

 

ATÉ QUANDO, ATÉ QUANDO?   

laurindo.barbosa@gmail.com

 

 

publicado por Fri-luso às 21:56

Laurentino Sabrosa
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