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Março 09 2012

 

 

11 - Assim como não há repouso absoluto, visto que tudo no Universo gira e o que está pousado gira em união com aquilo em que está em movimento, sou tentado a pensar que tudo no Universo tem vida. A Lua, inóspita e desabitada, pelo simples facto de ter movimentos, tem vida, uma vida existencial,  não uma vida tal como a que os habitantes da Terra têm, mas vida, que lhe deu “um primeiro motor”, que continua a manifestar-se nela. O dito de Descartes PENSO, LOGO, EXISTO tem sido muito contestado, mas eu posso dizer, em dito talvez mais aceitável: MOVE-SE, LOGO, VIVE. E se é verdade que NADA SE CRIA, TUDO SE TRANSFORMA, isso só é possível porque as coisas têm vida, e quando se transformam passam a nova fase da sua vida.

Uma pedra “nasceu” no seio de uma pedreira com uma vida sem sangue que lateje; quando é transformada em estátua continua com a mesma vida, agora mais débil, sujeita à acção desagregadora da erosão, pela chuva, ventos e sol intenso, elementos estes que, pelo facto de existirem e actuarem, têm, por sua vez, a sua espécie de vida. A erosão intensa e demorada faz desagregar a rocha, “mata-a”, transformando-a em areia, pelo que a rocha continua com vida sobre outra forma; a erosão continua, a própria erosão, porque existe e actua, tem ela própria vida ou um certo tipo de vida, e “mata” a areia, mas esta areia não perde a sua vida porque se transforma em pó, outra fase da sua vida. E assim sucessivamente. Aquilo a que chamamos vida é uma forma de ser, de existir, de permanecer, de estar.

Sendo assim, nada custa aceitar a vida após a nossa morte e, portanto, COM A NOSSA MORTE A VIDA NÃO ACABA, APENAS SE TRASNFORMA

 

12  - Muito queria eu “descansar em paz” e “ir desta para melhor”, mesmo antes de morrer! Como isso é impossível nesta vida, estas expressões têm um significado espiritual e filosófico mais profundo do que parece.

 

13 -  Creio que uma grande norma de vida é procurar, em disputas, não ser moralmente obrigado a dar razão a alguém; melhor ainda, procurar que os outros, quando não forem orgulhosos e teimosos, se vejam obrigados a dar-nos sempre razão. Mas ai de quem assim for!  O mínimo de que o acusam é ser autoritário.

 

 14 - A água quando está a ser fervida, começa por gemer de dor. Mas, depois de entrar em ebulição, como ela canta e salta de prazer, a adorar o fogo que lhe proporciona aquela nova vida!

 

15 - Um grande mal das pessoas, sobretudo da juventude, é não saber aproveitar o tempo; pior ainda, querer não aproveitar o tempo por indolência e insensatez. Outro grande mal das pessoas, não está em não saber: está em não aplicar devidamente aquilo que sabem, grande parte dado, em complemento da instrução, pela consciência e pela intuição.

 

 16 -  Uma pessoa a rezar é quase como uma mãe a falar para o seu bebé. Ele mostra-se indiferente, não dá mostras de ouvir, raras vezes sorri, mas se não for o carinho da mãe, aparentemente não correspondido, o bebé corre risco de se estiolar. Quando rezamos a Deus, Ele parece indiferente, não dá mostras de ouvir, raras vezes sorri, mas se não for esse nosso carinho para com Deus, aparentemente tão pouco correspondido, seremos nós a criança que se estiola sem o carinho da mãe.

 

 17 -  A Terra é um corpo vivo, sempre em regeneração e em rejuvenescimento. As penedias são a sua estrutura óssea, as fontes são coração donde saem os rios, os rios são as veias onde circula o sangue da Terra, Terra que tem como húmus, conforme poderia dizer Marco Aurélio, o esperma de Zeus. Mas Zeus nunca existiu, e por isso, o húmus da Terra é o sangue da Terra, é a água que, como elemento sagrado é vivificadora da alma pelo baptismo, como elemento telúrico é purificadora do corpo. O corpo vivo que é a Terra, tem uma boca, não uma boca hiante com a do dragão do Apocalipse, mas uma boca que proclama a Palavra de Deus. E essa boca tem um palato – o firmamento, quase abóbada, quase azul, mas não é nem abóbada nem azul : um olhar aflito fá-lo negro em pleno dia; um coração exultante fá-lo opalino em plena noite. No entanto, o firmamento é apenas o limite das nossas capacidades visuais. Nada mais firme que o firmamento, porque sendo o palato da boca de Deus, é obra de Deus e não há perigo de vir a derruir.

29 de Fev.2012

laurindo.barbosa@gmail.com

 

 

publicado por Fri-luso às 09:15

Laurentino Sabrosa
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