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Março 02 2012

 

  

O MODERNO CARNAVAL PORTUGUÊS

 

Não muitos dias volvidos sobre o tempo do Carnaval, ainda estamos a tempo de dissertarmos sobre aquilo em que se tornou o Carnaval em Portugal.

 

A alegria académica que agora é exibida no tradicional cortejo da Festa da Queima das Fitas, é uma sombra do que era no meu tempo de estudante. Agora, é uma extravagância tão artificial, que por vezes e lamentavelmente, só uns garrafões de vinho a conseguem manter…As perspectivas e as estatísticas dizem que o futuro selou um pacto com o diabo. Então, no cortejo convém afivelar as máscaras da alegria, numa tentativa de cada estudante e todas as pessoas se convencerem de que esse tal pacto com o diabo vai ser quebrado clamorosa e auspiciosamente, ficando o futuro liberto para se lhes apresentar risonho e promissor. Não convém curtir tristezas por antecipação, não convém sermos caixeiros-viajantes da banha de cobras venenosas. E então…haja alegria !... ainda que seja preciso chamar a música, ainda que essa música não seja mais do que gritos de alma amarfanhada por receios, que se escondem por entre a alacridade possível.

 

No Carnaval português passa-se, mutatis mutandis, a mesma coisa. O “grosso” do Carnaval dantes eram as crianças encantadoramente fantasiadas; adultos com máscaras, que quanto mais horrendas mais bonitas e próprias eram, máscaras com que cada qual intrigava o seu vizinho disfarçando também a voz; os bailes particulares ou no velho e saudoso Palácio de Crista do Porto e espectáculos nos cinemas, com profusão de confettis e fitas tanto a esmo, que alguns se tentavam a reutilizar apanhando-as do chão. Havia mesmo portaria das autoridades a proibir isso, por uma evidente questão de higiene pública. Quase tudo isso acabou.

 

Não foi só a alegria académica que esmoreceu, foi também a alegria da grande generalidade das pessoas, por motivos de crise social e económica. Uma sociedade que tem muitos jovens na cadeia, muitos filhos “apanhados” pela droga, muitos casais divorciados, muitos jovens com futuro profissional sombrio, não pode ser uma sociedade feliz. E, então, em que se tornou o Carnaval português?

 

Como a alegria que havia no mercado era pouca e de má qualidade, o remédio, na mente de muita gente, foi importá-la do Brasil. Se, porventura, ficar demasiado dispendioso chamar e contratar

 

os ilustres profissionais da alegria e das novelas, então organizam-se desfiles de carros alegóricos e satíricos, a que se chamam corsos de Carnaval, numa imitação tão chapada do que se faz no Rio de Janeiro que até nem faltam, apesar do normal frio da época, mulheres noventa e nove por cento desnudas. Como se quer imitar e bem o que se faz na banda di lá, essas mulheres lançam-se num frenesim de dança, a quererem convencer-nos de que também elas são rainhas do samba em atitudes lascivas e cheias de sassaricos. Não estou a querer focar a pouca decência das vestes e das danças, coisa em que modernamente pouco se repara e no Carnaval ainda menos. Estou a focar o decréscimo cultural que em Portugal esses cortejos representam, pela imitação ridícula do que se passa no Brasil mas não é ajustado à nossa alma nacional.

 

Começa pela diferença quanto à estação do ano: lá é Verão, cá é Inverno e, às vezes, bem frio e chuvoso; depois, as diferenças entre os portugueses e os brasileiros são maiores do que parece. O Brasil é um país imenso, com várias latitudes e longitudes, com um clima predominantemente tropical, situado noutro hemisfério, onde se vê o Cruzeiro do Sul e outros astros que dão aos brasileiros, por assim dizer, outro astral; é um país de gente jovem, não envelhecida como em Portugal e no resto da Europa, alegre, cheia de pensamento positivo e de optimismo – tudo isso se reflete no temperamento do povo, nos costumes, na linguagem, na sua alma nacional onde está infiltrada a exuberância da Natureza.

 

Querer transpor o carnaval carioca para Portugal, é uma  maneira de perder um pouco aquela personalidade e identidade que deve haver em todos nós, e esperemos vá subsistindo ainda  para sabermos remediar as nossas crises à portuguesa,  não com remédios em imitações, que nem são remédios nem paliativos, pois que até têm algo de parecido com narcóticos.

 

 Nos tempos modernos, os grandes meios de comunicação social têm a pérfida missão de massificar as pessoas, para elas não terem gostos e opiniões pessoais, que a tudo batam palmas e que com qualquer coisa se divirtam. Qualquer povo tem de lutar contra isso, para não acabar na vil tristeza de perder a dignidade, correndo o risco de desaparecer por ter ficado abúlico e amorfo. Portugal tem sobre si uma profunda crise, em todos os aspectos: económica, financeira, moral, social, política e religiosamente. As condições que fizeram evolar-se a graça académica e a alteração de costumes que fizeram chamar o Carnaval do Rio, são um dos sintomas ou consequências dessa crise. Mas eu creio que Portugal, apesar de tudo não irá perecer, porque uma nação que tem como uma gloriosa epopeia cantada n’ OS LUSÍADAS, que tem bandeira e hino dos mais belos do mundo e é a pátria da SENHORA DE FÁTIMA, viverá sempre, às vezes com dor mas sempre com brilho, para continuar a colaborar na História da Humanidade.

 

 

 

publicado por Fri-luso às 21:26

Laurentino Sabrosa
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