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Janeiro 19 2012

Se há virtudes mais nobres que outras, a virtude da sinceridade é das mais nobres. Se não houver sinceridade no que se diz, no que se faz, no que se promete, no que se reza, nada tem valor, tudo passa a ser hipocrisia. A humildade, os próprios actos de caridade, os actos de solidariedade, se não forem sinceros por terem interesses pessoais ou fins inconfessáveis, são vilezas que quando descobertas tocam a oco e sabem a choco.

Refiro-me à sinceridade que, “sinceramente”, está alojada no espírito e no coração, fazendo parte da formação espiritual da pessoa. Mas, na verdade, de certa maneira, todos nós somos “obrigados” a ser sinceros. Com efeito, queiramos ou não, e sem nisso pensarmos, todos nós damos a perceber aquilo que somos, nas nossas relações quotidianas com os familiares e todas as pessoas com quem lidamos. As reacções perante alegrias e tristezas, o olhar e os gestos, o estilo de vida e os vícios, as preferências no que veste e no que come, mostram a um bom observador a personalidade de uma pessoa, evidenciando o seu húmus psicológico e sentimental, ou seja, patenteando os pensamentos que lhe bailam na cabeça e os sentimentos que lhe inundam o coração.

Nicolau Tolentino de Almeida (século XVIII) diz em algures da sua obra poética:

 

Debalde loucos amantes, disfarçais penas e gostos

se os atentos circunstantes têm em vós os olhos postos.

Um suspiro de repente e um certo mudar de cor

São sinais evidentes de que o peito oculta amor

 

O que vale à maioria das pessoas que não querem mostrar aquilo que são e querem esconder aquilo que sentem, é que, na verdade, são muito poucas as pessoas que são suficientemente observadoras e perspicazes para o descobrir, o que tem como reverso poucas pessoas serem apreciadas pela suas virtudes.

Há alguns livros que nos pretendem dar orientações sobre como captar a maneira de ser das pessoas, analisando os tiques, a maneira de cumprimentar, o riso, a fala e outras manifestações espontâneas pelas quais cada um pode inconscientemente revelar-se. Não é fácil, porém, ser psicólogo para desvendarmos, ainda que superficialmente, o íntimo de alguém. As pessoas, por um lado, têm, mesmo perante um psicólogo profissional, um grande índice de retracção para não se deixarem devassar; mas por outro lado, mostram aquilo que são, nas suas atitudes, nas suas opiniões, em episódios isolados e em instantes fugidios, ainda que seja apenas “um suspiro de repente e um certo mudar de cor”. Se um bom observador, numa análise continuada souber conjugar e relacionar todos os elementos que lhe são patenteados, pode chegar a conclusões válidas. 

Conheço uma história que, penso eu, comprova cabalmente esta minha teoria de que nos damos a conhecer quando menos o queremos. Foi publicada há muitos anos, no jornal O PRIMEIRO DE JANEIRO, numa série de episódios retirados dos arquivos da Scotland Yard, por um agente aposentado.

Um certo homem era duramente acusado de vários crimes, e havia provas evidentes de que ele era o criminoso. No entanto, ele, talvez querendo escapar à pena de morte, negava terminantemente, proclamava a inocência, apesar de se lhe mostrarem as provas esmagadoras. Perante elas, com grande teimosia e resistência psicológica, continuava sempre a negar, o que não impediu de ser condenado e levado ao patíbulo para ser enforcado. À última hora, quando já estava tudo pronto e a postos para a execução, o homem pediu para dar umas palavras ao povo que assistia. Era o seu último desejo que, como tal, lhe foi permitido. Então, o homem bradou para todos:

– Criminosos!  Nunca confesseis!

Os jurados que o tinham condenado ficaram satisfeitos. Aquele criminoso que nunca tinha confessado os seus crimes, sem querer, à última hora, fez a mais válida das confissões.À última hora foi verdadeiramente sincero.

 

laurindo.barbosa@gmail.com

publicado por Fri-luso às 09:28

Laurentino Sabrosa
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