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Fevereiro 19 2012

  

  

SOCIEDADE DE SÃO VICENTE  DE PAULO

                               

 No Ano da Graça de 1859, ocorreram dois factos muito importantes: um, notável em todo o mundo pelo progresso científico; o outro, notável em Portugal, pelo progresso social. O primeiro, foi a publicação de uma obra que se tornou famosa, A Origem das Espécies, de Charles Darwin, cientista inglês, que lançou novas teorias sobre a vida à face da Terra; o segundo, foi a introdução em Portugal da Sociedade de São Vicente de Paulo.

Darwin, com as suas conclusões científicas que considerou incontestáveis, rebateu o Criacionismo, ou seja, acabou por dispensar a intervenção de Deus na obra da Criação do Universo, na biodiversidade e na existência da própria vida, o que foi bem acolhido, muito por causa disso, em certos meios científicos, para quem a referida obra passou a ser a sua Bíblia de argumentação. Já não querem investigar um pouco mais, para concluírem que, afinal, Criação (Deus) e Evolução (Ciência) não são incompatíveis e bem podem dialogar, apesar das dificuldades que historicamente sempre tem havido. Contrapondo-se à obra de Darwin, uma meritória dilatação da Ciência, houve em Portugal a introdução da Sociedade de São Vicente de Paulo, uma necessária e auspiciosa dilatação da Fé.

Recuemos a 1833. Nesse ano, em França, um jovem de nome Antoine Frédéric Ozanam, com 20 anos, juntamente com alguns amigos, fundava a “Sociedade de São Vicente de Paulo”, para acorrer aos pobres que grassavam em Paris, com a caridade plena de que o santo que era o seu patrono deu o exemplo. Porque essa obra por ele fundada era uma obra de Deus, depressa se expandiu por todo o mundo. Seis anos após a sua morte, aos 40 anos, entrava em Portugal.

Para os cientistas ateus, a obra de Darwin é a que mais mudou o mundo; para o mundo em geral e para os cientistas não ateus, a fundação da Sociedade de São V. de Paulo não foi o que mais mudou o mundo, porque esse papel de mudar verdadeiramente o mundo já tinha sido desempenhado pela pregação de Jesus Cristo, em cuja doutrina a Sociedade de S. V. de Paulo se baseia. E é por isso que, com carácter internacional, é um dos mais significativos sinais de uma maneira renovada de toda a humanidade se relacionar com o mundo, um novo ânimo, um grande bálsamo, uma aumentada espiritualidade.

Em França, em 1833, a Sociedade de S. V. de Paulo, essa obra silenciosa e humilde impulsionada por Ozanam, teve como antecedentes a acção social e eminentemente caritativa que Vicente de Paulo e várias mulheres, como Louise de Marillac dedicadas à causa dos pobres, exerceram duzentos anos antes, tendo, então, fundado as Confrarias de Caridade para socorrer a gritante miséria que havia na época. Inspirado por essas confrarias, Ozanam e os seus amigos, com a ajuda da Irmã Rosalie Rendue e do Padre Lacordaire, fundaram conferências com os mesmos fins. Em breve muitas outras conferências se espalharam em muitos países do mundo, tendo chegado a Portugal em 1859.

 Várias personalidades ilustres, entre elas Francisco d’Azeredo Teixeira d’Aguilar (Conde de Samodães), e o Cónego Sena de Freitas, contribuíram denodadamente para isso, sendo então fundada a primeira Conferência na Igreja de S. Luís em Lisboa. Não foi fácil conseguir, dadas as condições sócio-políticas, sobretudo pela sanha anti-religiosa, apesar de aquela época já ter os seus “novos pobres”: os resultantes de termos sido um país recentemente flagelado pela guerra civil entre os liberais e os absolutistas, e os resultantes da chamada Revolução Industrial. Grande parte dos “novos pobres”, agora, resulta do flagelo da sida; anteriormente, era o flagelo da  tuberculose.

Todas as grandes obras, especialmente as espirituais, têm imensas dificuldades em se afirmar e se manter. Mas esta, porque é obra de Deus, venceu e tem vencido todos os entraves, dificuldades e escolhos, em que não têm faltado convulsões sociais e políticas, como a implantação da República, as duas Grandes Guerras e a Revolução de Abril de 1974. É muito de meditar em quais serão os factores poderosos que têm mantido em todos os países tal “Sociedade”, apesar de todas as crises. Temos de concluir que é obra de Deus e de verificar porquê. Na verdade, trata-se de uma maneira mais perfeita da exercer a caridade, que à data da fundação era inteiramente nova: Ozanam e os seus amigos não esperaram que fossem os pobres a virem até eles – tomaram a iniciativa de irem eles ter com os pobres; não entregaram o serviço da caridade à hierarquia da Igreja, aos mosteiros ou institutos religiosos – foram eles pessoalmente; não procuraram fazer obras de caridade esporadicamente e individualmente – procuraram interessar e sensibilizar toda a sociedade para uma obra permanente, colectiva e organizada; houve sempre a preocupação de que toda a sua acção fosse um instrumento de Deus, pelo que tudo era feito com espírito de oração; quase desde a fundação, houve, por sugestão do próprio Ozanam, um acolher-se da obra à Virgem Maria, como sua inspiradora e protectora. Em 12 e 13 de Agosto de 1928, foi realizada a primeira peregrinação nacional a Fátima, prática que desde há muito é realizada todos os anos. Os seus fundadores eram firmes na sua fé, alegres na esperança e magnânimos na caridade, e tudo prepararam para que todos os que se lhes juntassem e sucedessem fossem assim. 

No ano passado, comemorou-se o sesquicentenário em Portugal. O centenário foi oportunamente comemorado com, entre outras coisas, um solene Te-Deum na Sé Patriarcal de Lisboa e uma sessão solene na Sociedade de Geografia. Quando oportuno, são celebrados eventos e datas importantes. Assim, em 1883, foram comemorados os 50 anos, as Núpcias de Ouro, conforme se disse na altura, numa sessão em que o já referido Conde de Samodães proferiu um notável discurso. Em 1908, por proposta do mesmo Conde, celebrou-se nova festa, que para além de ser comemorativa das Núpcias de Diamante, foi o 1º. Congresso Vicentino Nacional, donde surgiu um aperfeiçoamento da organização e melhor adaptação à realidade portuguesa. Desde então, outros Congressos se têm realizado, tendo havido no Porto um em 1927. De todos os congressos ou reuniões de grande amplitude, vão saindo meditações e observações sobre as necessidades da era moderna, uma actualização das maneiras de as colmatar em benefício de quem precisa das suas acções e das suas orações, para que tanto quanto possível e conforme a mística do nosso Beato Frederico Ozanam, “não haja dores inconsoláveis e alegrias exclusivas.” Assim, a Sociedade de S. V. de Paulo manter-se-á jovem em espírito, não por querer seguir modas de actuação e atitudes espalhafatosas, nem por querer seguir as tendências modernas do pensamento cultural ou científico. Darwin e os seus cientistas tornaram mais difícil o diálogo entre a Ciência e a Fé, mas os vicentinos, os fundadores e os de agora, mostram que é fácil o diálogo entre crentes e não crentes, intelectuais e ignorantes, ricos e pobres, se houver da parte de todos espírito de tolerância, de compreensão e de amor, para não nos esquecermos de que cada um dos outros tem as mesmas necessidades físicas e espirituais que cada um de nós: um corpo a alimentar, um coração a sofrer e uma alma para salvar.

laurindo.barbosa@gmail.com

publicado por Fri-luso às 13:01

Laurentino Sabrosa
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