AUTORES

Janeiro 31 2012

Na primeira parte deste tema, afirmei que todos somos “sinceros à força”, porque, sem querermos, mostramos o que somos nas nossas atitudes, nas nossas emoções, etc., etc. Contei uma história demonstrativa e antes de contar nova história, permito-me algumas divagações.

Um grande escritor ou poeta só o será se for sincero no que escreve: sincero consigo próprio, dando a conhecer-se nos seus sentimentos e pensamentos a quem o ler. Diz-se que a literatura universal é a história do sofrimento da humanidade. Então, e na verdade, a literatura de cada qual é a manifestação do seu sofrimento e da sua personalidade. Se o escritor ou poeta pretender defender teorias que não são as suas, se quiser mostrar sentimentos que não são os seus, o que diz sai sem arte e sem alma. Vejamos a prosa do escritor Júlio Dinis: é toda suavidade e doçura, retratando bem a personalidade e os sentimentos da sua pessoa; vejamos a poesia e a prosa de Alexandre Herculano: mostram no seu estilo a austeridade de carácter e a rectidão de espírito que sempre teve na sua vida; vejamos a poesia de Bocage: mostra bem as facetas do seu espírito – inquieto, boémio, mas sofredor, a aspirar as coisas eternas e espirituais. Não é num ou noutro texto ou numa ou noutra poesia, que o seu autor se revela. Um autor revela-se na globalidade da sua obra.

Eu próprio já recebi de alguém, e a respeito do que escrevo, o que eu  considero os dois maiores elogios: “nota-se em tudo que escreve” – dizia esse alguém – “uma unidade de pensamento, uma doutrina coerente nunca desmentida. E para além disso, quem o conhece e tem conversado consigo, quem o lê, tem, por vezes, a sensação de o ouvir falar.” Note-se, ele não elogiou a minha “doutrina”, elogiou o modo sincero e espontâneo como ela era exposta.

A literatura de cada qual é, assim, uma maneira de se revelar, uma maneira diferente da do convívio social. Dentro desta área, posso contar mais uma história.

Certo meliante estava em tribunal a ser julgado. Havia inúmeras provas contra ele, mas ele sempre negava e, talvez para não cair em contradições, recusava-se a falar. Apesar das provas, havia um certo clima de incerteza, e o advogado quis aproveitar-se disso. Na sua defesa tocou exactamente esse ponto e a certa altura exclamou: “Para provar que o réu não deve ser condenado, eu consegui uma prova concludente – por aquela porta, ali ao fundo da sala, vai entrar alguém com a prova de que todos precisamos para ilibar o réu de todas as acusações. Meritíssimos juiz e jurados, por um minuto a vossa atenção ao que vai suceder.” Toda a gente, todos volveram ansiosamente os olhos para a tal porta. Mas a verdade é que nada surgiu, nada aconteceu. Perante a curiosidade e ansiedade de toda a gente à espera da prometida prova, o advogado prosseguiu a sua defesa, evidenciando que todos admitiam a inocência do réu, pois a própria expectativa e o grande interesse de todos em ver chegar a prova, era a prova de que era de toda a justiça o réu não ser condenado.

Todos os jurados, toda a assistência ficou abalada nas suas anteriores convicções. Juiz e jurados retiraram-se para deliberar. O réu foi condenado. E porquê? Um dos jurados apresentou um forte argumento. É que ele notou que o réu foi a única pessoa que ficou impassível, e não se virou com curiosidade e emoção para ver chegar a prova. Sabendo-se culpado, sabia que tudo aquilo era mera retórica profissional do advogado. Em suma, o que não confessou por palavras, confessou em silêncio com um simples gesto.

 laurindo.barbosa@gmail.com

http://autores2,blogs.sapo.pt/

publicado por Fri-luso às 19:22

Laurentino Sabrosa
Image Hosted by ImageShack.us
Europa
Europa
pesquisar