AUTORES

Janeiro 23 2012

 

A LÍNGUA PORTUGUESA NA POESIA

 

I

 

 Assim como quem estuda matemática, deve saber o mais possível sobre os principais e mais célebres matemáticos; assim como quem se dedica à música, deve conhecer as principais e mais célebres obras dos mais ilustres músicos; também quem se dedica ao estudo da Língua Portuguesa deve conhecer os seus mais ilustres Mestres e os seus mais ilustres escritores. Muitos desses escritores, porque muito amaram a sua língua, deixaram belos textos em que patentearam a beleza que nela encontraram, contribuindo, com isso, para ainda mais a abrilhantarem. É bem conhecido o exemplo de Fernando Pessoa que disse “A minha Pátria é a Língua Portuguesa”, apesar de ser um grande conhecer da língua inglesa, língua em que também escreveu. Um poeta português, verdadeiramente poeta e verdadeiramente português, não pode deixar de amar a sua língua, e aquele português que ama a sua língua mas não é poeta por não ser de seu jeito alinhavar versos, se verdadeiramente cultiva e ama a sua língua está a ser, só por isso, verdadeiramente poeta e verdadeiramente português.

Exemplo de verdadeiramente poeta e verdadeiramente português é António Correia de Oliveira. O seu amor ao nosso idioma está bem expresso numa poesia intitulada A FALA QUE DEUS NOS DEU, que apesar de extensa, merece ser bem conhecida. Transcrevo:

Ouvi! A Língua é Bandeira da Pátria, que reza e canta. / Bendito quem, entre tanta de altiva cor estrangeira, à luz do Sol a levanta!  ///   A Língua é Alma envolvente da Pátria de todos nós. / Maldito quem, loucamente, Lhe mancha a pureza ardente ao bafo da escura voz!  ///  A Língua é Sangue : arde em chama, sendo a Pátria um coração./ Maldito quem o derrama, porque não crê ou não ama, pregando o erro e mais não!  ///  A Língua é carne divina  da Pátria, em riso e aos ais./ Maldito quem a assassina, entre a palavra ferina e pensamentos  brutais!  ///  Ouvi! A Língua, em verdade, é Ontem, Hoje e Amanhã. / É Fé, Esperança e Saudade,  Filha e Mãe da Eternidade; Verbo de essência cristã.///

Ó Povo! Defende-a pura de ódio , inveja e negra ideia. /  Veste-a, na graça e candura do teu linho,  sem mistura de falsa púrpura alheia.   ///  E, mais e sempre, ela seja, em quem a fale ou escreva, como o Sol rompendo a treva / Espada em nobre peleja, ou Hóstia quando se eleva.

Repare o leitor na exaltação desta poesia em louvor da Língua Portuguesa. O poeta classifica de bendito aquele que a saiba dignificar e conservar a pureza; classifica de maldito aquele que a conspurca, porque é como não respeitar a “Bandeira da Pátria” e a “Alma de todos nós”; é como, se não se combater o erro, se esteja a  “derramar o sangue” do coração que a Pátria é, coração e Pátria que, afinal, somos todos nós.

Há um apelar ao Povo, uma impetração quase dramática, para que ele conserve a sua Língua pura, graciosa e cândida, sem mistura de “púrpura alheia” – ou seja, sem o uso desnecessário de termos estrangeiros – para que a Língua conserve o seu inconfundível timbre patriótico, e seja, nas imagens poéticas do autor, como um “Sol que rompe a treva, uma espada em nobre peleja ou uma Hóstia quando se eleva”.     

Como está esquecida e até desprezada no seu ideal esta poesia! E o mais confrangedor, é que esse esquecimento e desprezo começa logo da parte de uma grande maioria dos que têm obrigação de pugnar pela pureza e dignificação da Língua, e se esquecem de que ela é, como diz o poeta, “Ontem, Hoje e Amanhã”.

Um povo que não saiba preservar o Hoje e o Amanhã da sua Língua, é um povo destinado à  ruína cultural e arrisca-se a desaparecer. Amar a Língua Pátria é uma forma de patriotismo, pelo que esta poesia devia ser de “leitura obrigatória!” nos nossos currículos escolares! Em vez disso, são incluídas obras de Saramago, a pretexto de uma análise literária-cultural-científica, que sob vários aspectos são uma deseducação e uma desinformação.         

Continuando a mostrar aos leitores o quanto a Língua Portuguesa é exaltada em algumas poesias, falemos de Acácio de Paiva. É um grande poeta e jornalista do século passado, que morreu em 1944 com 81 anos de idade. Bem merecia ser muito mais conhecido. Muitas vezes usava o pseudónimo de Belmiro. Apreciemos este soneto

 

Assim como onde tem maior pureza

A língua é na mãe de água, por ventura,

Assim também na aldeia é que é mais pura 

A minha amada língua portuguesa.

 

Na sua elegantíssima rudeza,

Como nos seus extremos de ternura,

Todos os pensamentos emoldura

Numa expontânea e artística beleza.

 

Oiço-a forte nas feiras, discutindo;

Nos serões oiço-a meiga, namorando;

E é sempre um trecho de poema lindo,

 

Aqui, soberbo; além, risonho e brando,

Porque é de Portugal o mar bramindo

E é também o nosso rouxinol trinando.

 

Repare o leitor na suavidade e encanto desta poesia, sobretudo a partir do primeiro terceto. Já anteriormente o poeta classifica a nossa língua de rude e de terna, para depois continuar as antíteses, apresentando-a como forte e meiga, em que se  namora e discute sem deixar de ser um constante poema. Segundo o poeta, a nossa língua é, umas vezes, o mar a bramir;  outras vezes, um rouxinol a cantar. E nisso está a sua grandeza e a sua beleza.

No próximo artigo terei o prazer de apresentar outro belo soneto, em que outro poeta atribui à nossa língua outras antíteses, talvez mais vigorosas que as de Acácio de Paiva. Espero que o leitor se entusiasme e encante, para continuar a ser o que verdadeiramente já é : verdadeiramente poeta e verdadeiramente português.

        

 

A LINGUA PORTUGUESA NA POESIA

 

II

 

O soneto que prometi e a que me referi no último artigo é do grande poeta brasileiro Olavo Bilac. Embora mais conhecido que Acácio de Paiva, merecia ser ainda mais conhecido e citado, não só porque é considerado o Príncipe dos Poetas Brasileiros, mas também porque foi um grande amigo de Portugal. É uma das maiores individualidades da comunidade cultural luso-brasileira. Pena é que tenha morrido precocemente, apenas com 53 anos de idade, em 1918.  Vejamos o referido soneto, intitulado  À Língua Portuguesa

 

Última flor do Lácio, inculta e bela

És, a um tempo, esplendor e sepultura:

Ouro nativo, que na ganga impura

A bruta mina entre os cascalhos  vela...


Amo-te assim desconhecida e obscura,

Tuba de alto clangor, lira singela,

Que tens o aroma e o silvo da procela

E o arroio da saudade e da ternura!

 

Amo o teu viço agreste e o teu aroma

De virgens selvas e de oceano largo!

Amo-te, ó rude e doloroso  idioma,

 

Em que da voz materna ouvi : “meu filho”

E em que Camões chorou, no exílio amargo,

O génio sem ventura e o amor sem brilho!

 

Analisemos um pouco

 

“Última flor do Lácio” – Lácio era uma antiga região de Itália cujos primeiros habitantes foram os latinos, nome este que foi tendo extensões de significado. O Lácio actual é uma região que é banhada pelo rio Tibre. Nesta poesia, “Lácio” personifica o Latim com toda a sua nobreza, língua de que o português é originário. Assim, “Lácio” está em vez de “Latim”, o que em retórica tem o nome de antonomásia, ou seja a substituição de um termo por outro que o identifica inconfundivelmente. Muitas vezes, as antonomásias são expressas por perífrases: utilização de muitos termos para exprimir o que se poderia dizer com menos.

 Ex : “O maior poeta português”, em vez de “Camões”; “O Imperador da Língua Portuguesa”, em vez de “Padre António Vieira”; “o fiel amigo”, em vez de “bacalhau” (nos hábitos alimentares e nas conversas de outrora).

Como do Latim derivaram várias línguas, o poeta considera a nossa língua como a última flor desse ramalhete. O poeta começa desde logo com as antíteses que muito embelezam a poesia, na ideia de enaltecer Língua Portuguesa. Repare-se: esplendor e sepultura ; tuba de alto clangor e lira singela; silvo da procela e arroio da ternura .

Repare também o leitor na repetição da conjunção e, sobretudo na parte  final da segunda quadra. Normalmente o uso repetido de morfemas ou elementos gramaticais, em Gramática é condenável. Assim, neste caso, poderia ter sido escrito : Que tens o aroma, o silva da procela, o arroio da saudade e da ternura. A substituição da conjunção copulativa e por vírgulas é o que em Gramática se chama coordenação assindética, mas pode ser estilisticamente contraproducente. A repetição do e (coordenação sindética), dá muitas vezes ao leitor, conforme os casos, a sensação de rapidez, de entusiasmo, de intensidade de sentimentos. Se o leitor estiver atento, notará coisas destas em alguns contos ou romances que leia.   

Com tudo isto que estou a dizer, pretendo que o leitor fique a saber certos meandros, para depois estar apto a apreciar melhor a beleza das poesias e o valor dos discursos ou das nossas maravilhosas obras literárias, que foram escritas pelos nossos grandes escritores. É certo que, antes de mais, importa não cometer a escrever e a falar erros grosseiros. Mas o amor à Língua Pátria não se deve contentar com isso.

                                                                                                             laurindo.barbosa@gmail.com

publicado por Fri-luso às 15:48

Laurentino Sabrosa
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