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Março 10 2015

APLAUSOS E ASSINATURAS

Na antiga Roma, houve um certo senador de nome Lucius Antónius Rufius Ápius. Este senhor ficou célebre à sua maneira, tão célebre que enriqueceu o vocabulário com a sua assinatura, que ele sintetizava em Larapius. Como era manifesta e publicamente desonesto, corrupto, desta sua assinatura resultou por ironia e para seu opróbrio, sentido ou não, mas opróbrio, o termo larápio, cujo significado é bem conhecido. O homem não prezava a sua assinatura.

Hoje em dia, quem observa o mundo e ausculta a vida social, chega à conclusão de que há muito quem faça o mesmo, e se o seu nome em assinatura não dá origem a um significado vergonhoso, é porque a vergonha se encontra num vale de penumbras e porque já houve alguém que há muitos séculos lhe roubou a vez.

Mas a verdade é que, para bem pessoal e de todos, seria óptimo que cada qual desse à sua assinatura a dignidade que ela merece. Esbanjar a assinatura, semear a sua assinatura a esmo, é banalizar a assinatura e fazer com que ela perca o prestígio que toda a assinatura devia ter. Está muito em moda, na internet, mensagens em que nos pedem a nossa assinatura a favor de assuntos de toda espécie, sobretudo sociais e caritativos. Às vezes não se sabe bem quem são os beneficiados por colaborarmos com a assinatura nessas causas. Mesmo que não haja perigo, creio bem que devemos ser parcos na distribuição da assinatura, para ela ser sempre tão prezada com deve.

Conheci um tal “sr. doutor” que morava em Vila N. de Gaia e que, sendo ferozmente republicano e anti-salazarista, assinava qualquer documento, carta, petição, manifesto, o que quer que fosse contra a situação, como era hábito dizer-se naquela época. Assinou tudo, dezenas ou até centenas de coisas. Os promotores já sabiam, iam ter com o Dr. Mário, e a sua assinatura era certinha. Que valor, ao fim e ao cabo, tinha tal assinatura, para além de ser mais uma a encher papel?

Paralelamente a este esbanjar de assinaturas, concedendo-as a torto e a direito, há o esbanjamento dos aplausos, concedendo-os também indiscriminadamente a quem os merece ou não. Como já tenho dito aos meus leitores e amigos, acho que hoje em dia, e já desde há muito, muitíssima gente deixou de ter sentido artístico e sentido crítico, pelo que com qualquer coisa se diverte e a tudo bate palmas. Há tempos um sacerdote, numa festa de Natal, ficou justamente escandalizado com uma canção cantada por um rapaz muito jovem, cuja letra era muito imprópria e até ofensiva contra os valores cristãos e natalícios.

Pois no fim toda a gente bateu palmas, mas o sacerdote e mais duas pessoas saíram de imediato, duplamente indignados, pelas palmas concedidas e pela letra que devia ser revoltante para quem participava numa festa de Natal. Muito possivelmente, essas pessoas, também concederão a sua assinatura negligentemente, a qualquer coisa e de qualquer maneira. Aplausos e assinaturas revelam a um bom psicólogo muito a respeito de uma pessoa.

A assinatura de cada qual deve ser um bem a preservar, como se fosse um brasão de nobreza, a mostrar um STATUS de dignidade. Todos deviam dizer: a minha assinatura sou eu, a minha assinatura é a minha personalidade, não pela beleza caligráfica, mas porque a minha assinatura diz tudo, na minha assinatura estou todo.

Aplausos e assinaturas não devem ser distribuídas sem cultura e sem inteligência.

LAURINDO FERNANDES BARBOSA

(Obsignatio mea omnis dixit; in obsignatione mea totus sum)

publicado por Fri-luso às 16:35

Laurentino Sabrosa
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