AUTORES

Janeiro 31 2012

Na primeira parte deste tema, afirmei que todos somos “sinceros à força”, porque, sem querermos, mostramos o que somos nas nossas atitudes, nas nossas emoções, etc., etc. Contei uma história demonstrativa e antes de contar nova história, permito-me algumas divagações.

Um grande escritor ou poeta só o será se for sincero no que escreve: sincero consigo próprio, dando a conhecer-se nos seus sentimentos e pensamentos a quem o ler. Diz-se que a literatura universal é a história do sofrimento da humanidade. Então, e na verdade, a literatura de cada qual é a manifestação do seu sofrimento e da sua personalidade. Se o escritor ou poeta pretender defender teorias que não são as suas, se quiser mostrar sentimentos que não são os seus, o que diz sai sem arte e sem alma. Vejamos a prosa do escritor Júlio Dinis: é toda suavidade e doçura, retratando bem a personalidade e os sentimentos da sua pessoa; vejamos a poesia e a prosa de Alexandre Herculano: mostram no seu estilo a austeridade de carácter e a rectidão de espírito que sempre teve na sua vida; vejamos a poesia de Bocage: mostra bem as facetas do seu espírito – inquieto, boémio, mas sofredor, a aspirar as coisas eternas e espirituais. Não é num ou noutro texto ou numa ou noutra poesia, que o seu autor se revela. Um autor revela-se na globalidade da sua obra.

Eu próprio já recebi de alguém, e a respeito do que escrevo, o que eu  considero os dois maiores elogios: “nota-se em tudo que escreve” – dizia esse alguém – “uma unidade de pensamento, uma doutrina coerente nunca desmentida. E para além disso, quem o conhece e tem conversado consigo, quem o lê, tem, por vezes, a sensação de o ouvir falar.” Note-se, ele não elogiou a minha “doutrina”, elogiou o modo sincero e espontâneo como ela era exposta.

A literatura de cada qual é, assim, uma maneira de se revelar, uma maneira diferente da do convívio social. Dentro desta área, posso contar mais uma história.

Certo meliante estava em tribunal a ser julgado. Havia inúmeras provas contra ele, mas ele sempre negava e, talvez para não cair em contradições, recusava-se a falar. Apesar das provas, havia um certo clima de incerteza, e o advogado quis aproveitar-se disso. Na sua defesa tocou exactamente esse ponto e a certa altura exclamou: “Para provar que o réu não deve ser condenado, eu consegui uma prova concludente – por aquela porta, ali ao fundo da sala, vai entrar alguém com a prova de que todos precisamos para ilibar o réu de todas as acusações. Meritíssimos juiz e jurados, por um minuto a vossa atenção ao que vai suceder.” Toda a gente, todos volveram ansiosamente os olhos para a tal porta. Mas a verdade é que nada surgiu, nada aconteceu. Perante a curiosidade e ansiedade de toda a gente à espera da prometida prova, o advogado prosseguiu a sua defesa, evidenciando que todos admitiam a inocência do réu, pois a própria expectativa e o grande interesse de todos em ver chegar a prova, era a prova de que era de toda a justiça o réu não ser condenado.

Todos os jurados, toda a assistência ficou abalada nas suas anteriores convicções. Juiz e jurados retiraram-se para deliberar. O réu foi condenado. E porquê? Um dos jurados apresentou um forte argumento. É que ele notou que o réu foi a única pessoa que ficou impassível, e não se virou com curiosidade e emoção para ver chegar a prova. Sabendo-se culpado, sabia que tudo aquilo era mera retórica profissional do advogado. Em suma, o que não confessou por palavras, confessou em silêncio com um simples gesto.

 laurindo.barbosa@gmail.com

http://autores2,blogs.sapo.pt/

publicado por Fri-luso às 19:22

Janeiro 26 2012
 
http://youtu.be/MF6nBYtpXvA
publicado por Fri-luso às 20:35

Janeiro 23 2012

 

A LÍNGUA PORTUGUESA NA POESIA

 

I

 

 Assim como quem estuda matemática, deve saber o mais possível sobre os principais e mais célebres matemáticos; assim como quem se dedica à música, deve conhecer as principais e mais célebres obras dos mais ilustres músicos; também quem se dedica ao estudo da Língua Portuguesa deve conhecer os seus mais ilustres Mestres e os seus mais ilustres escritores. Muitos desses escritores, porque muito amaram a sua língua, deixaram belos textos em que patentearam a beleza que nela encontraram, contribuindo, com isso, para ainda mais a abrilhantarem. É bem conhecido o exemplo de Fernando Pessoa que disse “A minha Pátria é a Língua Portuguesa”, apesar de ser um grande conhecer da língua inglesa, língua em que também escreveu. Um poeta português, verdadeiramente poeta e verdadeiramente português, não pode deixar de amar a sua língua, e aquele português que ama a sua língua mas não é poeta por não ser de seu jeito alinhavar versos, se verdadeiramente cultiva e ama a sua língua está a ser, só por isso, verdadeiramente poeta e verdadeiramente português.

Exemplo de verdadeiramente poeta e verdadeiramente português é António Correia de Oliveira. O seu amor ao nosso idioma está bem expresso numa poesia intitulada A FALA QUE DEUS NOS DEU, que apesar de extensa, merece ser bem conhecida. Transcrevo:

Ouvi! A Língua é Bandeira da Pátria, que reza e canta. / Bendito quem, entre tanta de altiva cor estrangeira, à luz do Sol a levanta!  ///   A Língua é Alma envolvente da Pátria de todos nós. / Maldito quem, loucamente, Lhe mancha a pureza ardente ao bafo da escura voz!  ///  A Língua é Sangue : arde em chama, sendo a Pátria um coração./ Maldito quem o derrama, porque não crê ou não ama, pregando o erro e mais não!  ///  A Língua é carne divina  da Pátria, em riso e aos ais./ Maldito quem a assassina, entre a palavra ferina e pensamentos  brutais!  ///  Ouvi! A Língua, em verdade, é Ontem, Hoje e Amanhã. / É Fé, Esperança e Saudade,  Filha e Mãe da Eternidade; Verbo de essência cristã.///

Ó Povo! Defende-a pura de ódio , inveja e negra ideia. /  Veste-a, na graça e candura do teu linho,  sem mistura de falsa púrpura alheia.   ///  E, mais e sempre, ela seja, em quem a fale ou escreva, como o Sol rompendo a treva / Espada em nobre peleja, ou Hóstia quando se eleva.

Repare o leitor na exaltação desta poesia em louvor da Língua Portuguesa. O poeta classifica de bendito aquele que a saiba dignificar e conservar a pureza; classifica de maldito aquele que a conspurca, porque é como não respeitar a “Bandeira da Pátria” e a “Alma de todos nós”; é como, se não se combater o erro, se esteja a  “derramar o sangue” do coração que a Pátria é, coração e Pátria que, afinal, somos todos nós.

Há um apelar ao Povo, uma impetração quase dramática, para que ele conserve a sua Língua pura, graciosa e cândida, sem mistura de “púrpura alheia” – ou seja, sem o uso desnecessário de termos estrangeiros – para que a Língua conserve o seu inconfundível timbre patriótico, e seja, nas imagens poéticas do autor, como um “Sol que rompe a treva, uma espada em nobre peleja ou uma Hóstia quando se eleva”.     

Como está esquecida e até desprezada no seu ideal esta poesia! E o mais confrangedor, é que esse esquecimento e desprezo começa logo da parte de uma grande maioria dos que têm obrigação de pugnar pela pureza e dignificação da Língua, e se esquecem de que ela é, como diz o poeta, “Ontem, Hoje e Amanhã”.

Um povo que não saiba preservar o Hoje e o Amanhã da sua Língua, é um povo destinado à  ruína cultural e arrisca-se a desaparecer. Amar a Língua Pátria é uma forma de patriotismo, pelo que esta poesia devia ser de “leitura obrigatória!” nos nossos currículos escolares! Em vez disso, são incluídas obras de Saramago, a pretexto de uma análise literária-cultural-científica, que sob vários aspectos são uma deseducação e uma desinformação.         

Continuando a mostrar aos leitores o quanto a Língua Portuguesa é exaltada em algumas poesias, falemos de Acácio de Paiva. É um grande poeta e jornalista do século passado, que morreu em 1944 com 81 anos de idade. Bem merecia ser muito mais conhecido. Muitas vezes usava o pseudónimo de Belmiro. Apreciemos este soneto

 

Assim como onde tem maior pureza

A língua é na mãe de água, por ventura,

Assim também na aldeia é que é mais pura 

A minha amada língua portuguesa.

 

Na sua elegantíssima rudeza,

Como nos seus extremos de ternura,

Todos os pensamentos emoldura

Numa expontânea e artística beleza.

 

Oiço-a forte nas feiras, discutindo;

Nos serões oiço-a meiga, namorando;

E é sempre um trecho de poema lindo,

 

Aqui, soberbo; além, risonho e brando,

Porque é de Portugal o mar bramindo

E é também o nosso rouxinol trinando.

 

Repare o leitor na suavidade e encanto desta poesia, sobretudo a partir do primeiro terceto. Já anteriormente o poeta classifica a nossa língua de rude e de terna, para depois continuar as antíteses, apresentando-a como forte e meiga, em que se  namora e discute sem deixar de ser um constante poema. Segundo o poeta, a nossa língua é, umas vezes, o mar a bramir;  outras vezes, um rouxinol a cantar. E nisso está a sua grandeza e a sua beleza.

No próximo artigo terei o prazer de apresentar outro belo soneto, em que outro poeta atribui à nossa língua outras antíteses, talvez mais vigorosas que as de Acácio de Paiva. Espero que o leitor se entusiasme e encante, para continuar a ser o que verdadeiramente já é : verdadeiramente poeta e verdadeiramente português.

        

 

A LINGUA PORTUGUESA NA POESIA

 

II

 

O soneto que prometi e a que me referi no último artigo é do grande poeta brasileiro Olavo Bilac. Embora mais conhecido que Acácio de Paiva, merecia ser ainda mais conhecido e citado, não só porque é considerado o Príncipe dos Poetas Brasileiros, mas também porque foi um grande amigo de Portugal. É uma das maiores individualidades da comunidade cultural luso-brasileira. Pena é que tenha morrido precocemente, apenas com 53 anos de idade, em 1918.  Vejamos o referido soneto, intitulado  À Língua Portuguesa

 

Última flor do Lácio, inculta e bela

És, a um tempo, esplendor e sepultura:

Ouro nativo, que na ganga impura

A bruta mina entre os cascalhos  vela...


Amo-te assim desconhecida e obscura,

Tuba de alto clangor, lira singela,

Que tens o aroma e o silvo da procela

E o arroio da saudade e da ternura!

 

Amo o teu viço agreste e o teu aroma

De virgens selvas e de oceano largo!

Amo-te, ó rude e doloroso  idioma,

 

Em que da voz materna ouvi : “meu filho”

E em que Camões chorou, no exílio amargo,

O génio sem ventura e o amor sem brilho!

 

Analisemos um pouco

 

“Última flor do Lácio” – Lácio era uma antiga região de Itália cujos primeiros habitantes foram os latinos, nome este que foi tendo extensões de significado. O Lácio actual é uma região que é banhada pelo rio Tibre. Nesta poesia, “Lácio” personifica o Latim com toda a sua nobreza, língua de que o português é originário. Assim, “Lácio” está em vez de “Latim”, o que em retórica tem o nome de antonomásia, ou seja a substituição de um termo por outro que o identifica inconfundivelmente. Muitas vezes, as antonomásias são expressas por perífrases: utilização de muitos termos para exprimir o que se poderia dizer com menos.

 Ex : “O maior poeta português”, em vez de “Camões”; “O Imperador da Língua Portuguesa”, em vez de “Padre António Vieira”; “o fiel amigo”, em vez de “bacalhau” (nos hábitos alimentares e nas conversas de outrora).

Como do Latim derivaram várias línguas, o poeta considera a nossa língua como a última flor desse ramalhete. O poeta começa desde logo com as antíteses que muito embelezam a poesia, na ideia de enaltecer Língua Portuguesa. Repare-se: esplendor e sepultura ; tuba de alto clangor e lira singela; silvo da procela e arroio da ternura .

Repare também o leitor na repetição da conjunção e, sobretudo na parte  final da segunda quadra. Normalmente o uso repetido de morfemas ou elementos gramaticais, em Gramática é condenável. Assim, neste caso, poderia ter sido escrito : Que tens o aroma, o silva da procela, o arroio da saudade e da ternura. A substituição da conjunção copulativa e por vírgulas é o que em Gramática se chama coordenação assindética, mas pode ser estilisticamente contraproducente. A repetição do e (coordenação sindética), dá muitas vezes ao leitor, conforme os casos, a sensação de rapidez, de entusiasmo, de intensidade de sentimentos. Se o leitor estiver atento, notará coisas destas em alguns contos ou romances que leia.   

Com tudo isto que estou a dizer, pretendo que o leitor fique a saber certos meandros, para depois estar apto a apreciar melhor a beleza das poesias e o valor dos discursos ou das nossas maravilhosas obras literárias, que foram escritas pelos nossos grandes escritores. É certo que, antes de mais, importa não cometer a escrever e a falar erros grosseiros. Mas o amor à Língua Pátria não se deve contentar com isso.

                                                                                                             laurindo.barbosa@gmail.com

publicado por Fri-luso às 15:48

Janeiro 20 2012

POSTAL DE PARABÉNS POR ANIVERSÁRIO


Prezado Aniversariante

 

Toda a gente busca a felicidade mas pouca gente é feliz porque quase todos a baseiam só no TER, no PODER e no SABER. Ora, a verdadeira e permanente felicidade não depende destas circunstâncias mas em sentirmo-nos jubilosos pela nossa maneira de SER. É-nos extraordinariamente difícil, porque para o ser humano, ao contrário dos irracionais, é quase impossível SER-SE AQUILO QUE SE É. O homem faz o que não deve, pensa e projecta o que não pode, ofenda a Natureza, a Criação e o Criador, ou seja, afasta-se d’aquilo que é, porque se afasta, por ignorância e por defeitos, do que Deus lhe mandou ser.

Estou a ensinar aquilo que sei, mas, possivelmente, não posso dar o exemplo daquilo que ensino. Eu próprio tenho dificuldades de SER AQUILO QUE SOU, porque não baseio a minha felicidade só nas minhas qualidades de espírito e de carácter, mas baseio-a também nas pessoas, nas necessidades das pessoas e nas circunstâncias que as envolvem. Faço depender a minha felicidade na felicidade  dos outros, o que me faz sentir feliz por pensar que esta a maneira mais nobre de o ser.

É por isso que venho dar-lhe os parabéns pelo seu aniversário e lhe desejar a verdadeira felicidade com saúde e longa vida na longa caminhada da caravana humana. Lembre-se de que, sem si, aniversariante, e sem mim, que lhe escrevo, o Mundo estaria incompleto.   Aproxi  me-se o mais possível de SER AQUIILO QUE É, aprimorando as suas qualidades de carácter e espírito para ter a verdadeira felicidade, premiada pela certeza de ser também a felicidade de todos  que fazemos depender de si a nossa felicidade.

                                                                                                                                                                                                     Afectuosamente

       laurindo.barbosa@ail.com

publicado por Fri-luso às 15:21

Janeiro 19 2012

Em certa roda de amigos, um deles a certa altura comunicou a todos que ia entrar de férias para casamento. Todos lhe deram os parabéns e desejos de felicidade. Mas, à reunião chegou mais tarde um dos amigos que não ouviu toda a conversa e, quando soube que o tal ia de férias, sem saber ainda que ele também ia para casamento, muito simplesmente lhe disse com amizade:

-Bem bom, meu caro! Aproveita bem, goza muito!

Entre os outros, foi uma risada. Esta risada por um dito tão simples, mostra a malícia moderna que pode haver por coisas nobres, como o casamento.

 Na cultura dos diferentes povos, o casamento é, ou era, ocasião de celebrações rituais, de regozijo, às vezes por dilatados dias, porque o casamento tem sido encarado não apenas como facto social, mas como algo de sagrado que imprime carácter e valor pessoal a quem o celebra. Se assim não fosse, não é muito de crer que Jesus e sua Mãe tivessem honrado com a sua presença as bodas de Caná.

Todos desejam aos noivos saúde e longa vida, que aproveitem bem e gozem muito, sem por sombras pensarem nos prazeres do himeneu, embora todos saibam que eles existem e que são mesmo necessários para o equilíbrio de vida e firmação da felicidade. A parte hunana-divina-sagrada, começa no tálamo nupcial, logo na primeira noite de núpcias. A virgindade da mulher sempre teve auréola de beleza e de espiritualidade, pelo que quando uma noiva se entrega com amor ao seu noivo para que lhe seja rompido o seu hímen, faz-lhe uma oferta de sangue a que ele corresponde com uma oferta de gâmetas, o fluido mais nobre da sua própria vida, numa união e relação que tem qualquer de místico e de transcendente. Sangue e gâmetas, simbólica e espiritualmente têm um inexcedível valor.

Há um provérbio inglês que diz blood is thicker than water, ou seja, o sangue é mais grosso que a água – é o que vulgarmente se chama a voz do sangue, que leva as pessoas a se unirem e amarem mais quando têm de comum o mesmo sangue construído num círculo fechado, chamado família. Quando alguém entra em relação de desprezo e de abominação com um dos do seu sangue, então o sangue passou a ser mais fino que a água; se alguém casa por interesse de grandes fortunas, é possível que o tal sangue, que devia ser sangue, degenere em petróleo, gerador de euros ou de dollars, mas de pouca felicidade.

Por isso, os esposos que souberem valorizar o sangue e os gâmetas da primeira noite, terão a união e a felicidade, se sempre vigiarem para que o sangue não degenere nem em água nem em petróleo.

O nosso sangue nunca deve degenerar seja no que for, mesmo nas relações humanas e sociais. Um sangue que degenere em água, deixa de poder cohabitar com a humanidade, por se tornar um indiferente e um orgulhoso; um sangue que se deixe degenerar em petróleo, será um monstro de ambição e de egoísmo. Para haver amor pátrio, para chorarmos com os que choram e darmos pão a quem tem fome, é preciso que o nosso sangue seja tão grosso como Deus no lo deu.

Blood is thicker than water. A voz do sangue é voz que deve ecoar e repercutir entre todos os elementos da família humana. 

 

     6 de Janeiro de 2012               

 laurindo.barbosa@gmail.com  

publicado por Fri-luso às 10:47

Janeiro 19 2012

Um tipo de discurso muito importante, são as SÁTIRAS. Modalidade antiquíssima, na sátira procura-se a crítica com intuitos moralizantes dos costumes de uma sociedade, das suas instituições, das ideias predominantes, denunciando  erros e hipocrisias. Podem ser feitas em prosa, em poesia ou em discursos propriamente ditos. Muitos dos sermões do Padre António Vieira são sátiras contra os colonos do Brasil que exploravam desalmadamente os escravos, principalmente nos engenhos de açúcar; outros sermões, pronunciados perante a nobreza da época, eram sátiras dirigidas com grande arrojo à própria nobreza, que com desagrado e desdém o estava a ouvir. É claro que isso lhe acarretou muitos desgostos e sofrimentos. Era o que sucedia a quem tivesse a sua ousadia  Foi o que sucedeu a Gomes Leal, que por causa dessa ousadia foi parar ao Limoeiro. Mas o leitor pode ficar descansado. Em livros, teatro ou discursos pode ser satírico à vontade, porque, modernamente, ninguém se sente visado por uma sátira. As sátiras não são ataques pessoais, são observações na generalidade, e, por isso, como não se citam nomes ou pessoas em concreto, ninguém se sente visado. Toda a gente ri e aprova a justeza da sátira, mas até os próprios visados se sacodem, julgando, sinceramente ou não, que a coisa não é nada com eles. Nota-se isso na reacção dos partidos políticos a certos textos ou discursos de grandes  individualidades nacionais ou internacionais: são avisos ou advertências dirigidas aos partidos e aos políticos em geral, quase todos estão de acordo com a oportunidade e exactidão dos “recados” que foram dados, mas cada político ou partido logo diz : estamos no bom caminho, aquilo não foi dito a pensar em nós.

Muitas sátiras são feitas em tom jocoso e sarcástico, e quanto mais sarcásticas forem mais mordazes são. Um tipo especial de sátira são os PASQUINS, coisa que há muito está arredada, mas pela curiosidade do que foram, é interessante relembrar. Os pasquins têm (ou tinham) uma finalidade diferente, menos nobre, da da sátira. Porque o pasquim era um escrito com que se pretendia ridicularizar com sarcasmo ofensivo e anónimo alguém: uma instituição, uma personalidade importante, ou o próprio Estado. O termo PASQUIM deriva de PASQUINO, nome de uma estátua da antiga Roma, que era uma velha estátua de Hércules a quem puseram esse nome, onde se formou o hábito de dependurar ou afixar os tais escritos anónimos e insultuosos. Mas anteriormente, quem deu o nome à estátua foi um certo sapateiro desse nome, conhecido pela sua má língua, cáustica e desbragada. Ora, havia e ainda há em Roma uma grande estátua de divindade fluvial chamada MARFÓRIO. E, então, eis que se formou o hábito de dar réplica no MARFÓRIO a muitos cartazes satíricos, colocados no PASQUINO. Durante cerca de três séculos foi uma “alegria”, ver e apreciar o reportório de piadas e  comentários, umas vezes cáusticos outras vezes divertidos entre as duas “estátuas falantes”,  falantes através do que lá era afixado.

Hoje o termo pasquim tem o significado de planfleto difamatório sem qualquer valor, que se pode aplicar, por exemplo, a um jornaleco sem aceitação e sem moralidade. Por isso, uma sátira que pretenda influenciar alguém, a corrigir erros, hábitos sociais ou doutrinas, nunca pode degenerar em pasquim, porque perde de imediato valor e credibilidade.

Há séculos que a sátira é praticada em toda Literatura. Já nos antigos gregos foi usada, por exemplo, por Aristófanes nas suas comédias. Na nossa literatura, houve na época medieval as “cantigas de escárnio e maldizer”; o poeta e escritor Sá de Miranda, cultivou a sátira; mais modernamente, tivemos em Eça de Queiroz e Ramalho Ortigão sátiras mais ou menos veladas, sobretudo nas suas conhecidas FARPAS.

Ser satírico através de uma obra, de um discurso, é muito diferente de ser panfletário. Este, usa tom satírico, mas sem serenidade e com violência de termos ofensivos, que normalmente lhe fazem perder a razão que tenha. Por isso, quase ninguém o toma a sério. A sátira pode ter os seus efeitos numa sociedade, mas é caso para perguntar: em que medida é que a humanidade foi levada através da sátira a reconhecer os seus erros, a melhorar a sua vida moral e social? Seria um estudo interessante psicológica e socialmente.

O Padre A. Vieira conseguiu alguma coisa, duvido que Gil Vicente através da sua obra teatral tenha conseguido o mesmo. E, então, hoje em dia, como acima referi, ninguém se sente atingido por uma sátira. Talvez risonhamente acolhida,  considerada oportuna e de valor, mas, no sentir de cada qual, o que na sátira se insinua para ser mudado é só para os outros, ou talvez para ninguém.

 

Nos velhos tempos da instrução primária, dizia-se que FÁBULA era uma história em que os animais falavam entre si como se fossem gente. Nada mais. É uma definição muito simplória que deve ser modificada. Na verdade, nas fábulas, os protagonistas da acção são animais, que são imaginados a falar e a ter sentimentos, em episódios de vida semelhantes aos dos seres humanos, mas  são histórias, em prosa ou em verso, que pretendem dar aos seres humanos lições de bom senso e de rectidão. Nessas histórias há elevados conceitos morais e filosóficos a respeito da nossa conduta, do que podemos esperar dos outros conforme os nossos próprios actos, etc.  São normas de vida que, aproveitadas, concorrem para a felicidade. A maldade e a perfídia têm sempre o seu castigo, o bem vence sempre o mal. Há, portanto, uma maneira muito diferente da da sátira, a pretender chamar a atenção, de corrigir o que moral, social e individualmente não é devido.

É um tipo de literatura também muito antigo. Entre os antigos gregos, ficaram célebres as fábulas de Fedro e as de Esopo. Na era moderna, as fábulas mais conhecidas são as de La Fontaine.   

Todas as culturas têm as suas fábulas, diferentes em pormenores, nos animais utilizados e no simbolismo que se associa a cada animal. Assim, e de uma maneira geral, o lobo é símbolo do glutão insaciável; a raposa é símbolo da esperteza desleal; a lebre, representa a agilidade; o leão, a força e dignidade de rei ; a hiena, a maldade; a rola, a mansidão e a pureza; o mocho é o animal sábio. É curioso notar que o cão, que entre nós é símbolo de dedicação, em algumas culturas é símbolo de perigo e de ferocidade.

Esperemos que as fábulas tenham, sobretudo na  educação da juventude,  a quem  mais se destinam,  maior impacto que as sátiras têm na sociedade.

 

laurindo.barbosa@gmail.com

publicado por Fri-luso às 10:40

Janeiro 19 2012

Se há virtudes mais nobres que outras, a virtude da sinceridade é das mais nobres. Se não houver sinceridade no que se diz, no que se faz, no que se promete, no que se reza, nada tem valor, tudo passa a ser hipocrisia. A humildade, os próprios actos de caridade, os actos de solidariedade, se não forem sinceros por terem interesses pessoais ou fins inconfessáveis, são vilezas que quando descobertas tocam a oco e sabem a choco.

Refiro-me à sinceridade que, “sinceramente”, está alojada no espírito e no coração, fazendo parte da formação espiritual da pessoa. Mas, na verdade, de certa maneira, todos nós somos “obrigados” a ser sinceros. Com efeito, queiramos ou não, e sem nisso pensarmos, todos nós damos a perceber aquilo que somos, nas nossas relações quotidianas com os familiares e todas as pessoas com quem lidamos. As reacções perante alegrias e tristezas, o olhar e os gestos, o estilo de vida e os vícios, as preferências no que veste e no que come, mostram a um bom observador a personalidade de uma pessoa, evidenciando o seu húmus psicológico e sentimental, ou seja, patenteando os pensamentos que lhe bailam na cabeça e os sentimentos que lhe inundam o coração.

Nicolau Tolentino de Almeida (século XVIII) diz em algures da sua obra poética:

 

Debalde loucos amantes, disfarçais penas e gostos

se os atentos circunstantes têm em vós os olhos postos.

Um suspiro de repente e um certo mudar de cor

São sinais evidentes de que o peito oculta amor

 

O que vale à maioria das pessoas que não querem mostrar aquilo que são e querem esconder aquilo que sentem, é que, na verdade, são muito poucas as pessoas que são suficientemente observadoras e perspicazes para o descobrir, o que tem como reverso poucas pessoas serem apreciadas pela suas virtudes.

Há alguns livros que nos pretendem dar orientações sobre como captar a maneira de ser das pessoas, analisando os tiques, a maneira de cumprimentar, o riso, a fala e outras manifestações espontâneas pelas quais cada um pode inconscientemente revelar-se. Não é fácil, porém, ser psicólogo para desvendarmos, ainda que superficialmente, o íntimo de alguém. As pessoas, por um lado, têm, mesmo perante um psicólogo profissional, um grande índice de retracção para não se deixarem devassar; mas por outro lado, mostram aquilo que são, nas suas atitudes, nas suas opiniões, em episódios isolados e em instantes fugidios, ainda que seja apenas “um suspiro de repente e um certo mudar de cor”. Se um bom observador, numa análise continuada souber conjugar e relacionar todos os elementos que lhe são patenteados, pode chegar a conclusões válidas. 

Conheço uma história que, penso eu, comprova cabalmente esta minha teoria de que nos damos a conhecer quando menos o queremos. Foi publicada há muitos anos, no jornal O PRIMEIRO DE JANEIRO, numa série de episódios retirados dos arquivos da Scotland Yard, por um agente aposentado.

Um certo homem era duramente acusado de vários crimes, e havia provas evidentes de que ele era o criminoso. No entanto, ele, talvez querendo escapar à pena de morte, negava terminantemente, proclamava a inocência, apesar de se lhe mostrarem as provas esmagadoras. Perante elas, com grande teimosia e resistência psicológica, continuava sempre a negar, o que não impediu de ser condenado e levado ao patíbulo para ser enforcado. À última hora, quando já estava tudo pronto e a postos para a execução, o homem pediu para dar umas palavras ao povo que assistia. Era o seu último desejo que, como tal, lhe foi permitido. Então, o homem bradou para todos:

– Criminosos!  Nunca confesseis!

Os jurados que o tinham condenado ficaram satisfeitos. Aquele criminoso que nunca tinha confessado os seus crimes, sem querer, à última hora, fez a mais válida das confissões.À última hora foi verdadeiramente sincero.

 

laurindo.barbosa@gmail.com

publicado por Fri-luso às 09:28

Laurentino Sabrosa
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