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Janeiro 03 2014

INCONGRUÊNCIAS, anomalias, SINAIS DOS TEMPOS

 

No meu tempo de criança, há 60 anos ou mais, os doentes de muito poucos recursos não se podiam tratar devidamente. Diziam: para o médico, eu ainda iria arranjando dinheiro; mas os remédios? São tão caros!...nem vale a pena pensar nisso.

Hoje é contrário: para os remédios essas pessoas ainda vão arranjando dinheiro, visto que, ao contrário do que era antigamente, a grande maioria deles tem uma boa comparticipação da Segurança Social; mas pagar ao médico? Eles cobram-se de tal maneira, que quem tem parcos recursos mal pode pensar nisso. E se precisar de um médico de uma certa especialidade? Oh! então é que são elas! O preço duplica ou triplica. O pior é que um médico que dantes era médico de clínica geral, agora também é “especialista” – especialista de medicina interna e familiar. Se precisar muito e não tem dinheiro, vai ao seu Centro de Saúde, ao médico que lhe atribuírem depois de vários dias de espera e de paciência, e …é o que Deus quiser! Se for necessária uma operação cirúrgica, depois de muito trabalho, paciência e outros sacrifícios, lá consegue ver por fim agendada a tal operação, não se sabe para quando, que pode demorar meses ou anos. Durante a espera do que tanto tempo demora a chegar, a mulher diz para o marido:

 – Ó homem, que tristeza, nunca mais te chamam para fazeres essa operação que tanto precisas!

E o marido, conformado, responde:

 – Deixa lá, mulher, não há nada a fazer! Não temos compadres que me façam passar à frente dos outros, pois não? Então, vamos andando, é o que Deus quiser! Vou morrer antes? E se morrer?..

Esta vontade de querer ter alguém que o favoreça na vida, mesmo em prejuízo dos outros, passou a ser um dos aspectos do velho struggle for life, necessidade fulcral para sobrevivência humana, sem a satisfação da qual todos são ou receiam fundadamente ser cilindrados. Vencidos da vida! Vae victis! ai dos vencidos! É nos exames de condução, nos exames que nos concedam diplomas de grande categoria profissional, nos internamentos hospitalares e operações cirúrgicas, na obtenção de empregos rendosos, se possível sinecuras, é em tudo que seja ter na vida um lugar ao sol ou um lugar à sombra, conforme as nossas conveniência ou gostos.

Se não houver alguém que nos favoreça, favorecemo-nos a nós próprios, exagerando os nossos direitos, esquecendo os nossos deveres, aproveitando-nos de deslizes ou esquecimentos dos outros, usando a nossa supremacia contra a debilidade económica ou social deles, e não se importando de dar e considerar bom para eles o que para si não presta.

Há já bastantes anos, quem de direito queria encontrar onde enterrar lixos radioactivos Foram pensadas algumas localidades como apropriadas para isso, mas logo uma onda de protestos se levantou em cada uma delas. Ninguém queria aceitar, invocando toda a espécie de razões, todas bem elaboradas. Mas aquele lixo tóxico tinha de ter um destino, onde? A resposta de todos implicitamente era: em qualquer lado; desde que não seja à nossa porta!...

Dantes a sabedoria popular, através de tradições, ditados, aforismos, a chamada “sabedoria das nações” cheia de lógica e de bom senso, era conhecida e seguida. Mas os nossos deputados, da Assembleia Nacional e de outras assembleias são mestres no seu desconhecimento. Não importa o Governo dizer que não há dinheiro, que estamos de tanga, que temos de a abandonar hábitos de viver acima das possibilidades. Os deputados, principalmente os vocacionados para a oposição derrotista, o que querem é lisonjear a turba para que ela não seja beliscada nos seus direitos adquiridos em época de desvario, esquecidos de que… se não há, não há, onde não há o rei o perde, ou seja, se não há, não há, o próprio rei por mais absoluto que seja não abicha nada. Não querem que os outros percam direitos para que eles próprios também não percam direitos.

Por outro lado o próprio Governo, os seus ministros, embora dizendo que estamos de tanga, também não querem perder benesses e regalias, e os cortes, a austeridade, é só para os outros, para a turba, habituada a maus exemplos e a pérfidos incentivos. Por vezes, até dizem que o benefício que para o Estado e para o Orçamento resultaria do corte das suas regalias e luxos, era tão diminuto que não vale a pena pensar nisso, até porque, eles sim, são cidadãos de primeira, enquanto os outros, a turba a quem se deviam dedicar, são cidadãos de terceira. Não sabem que em assunto de economias grão a grão enche a galinha o papo, e nunca ouviram dizer que se uma imagem vale tanto como mil palavras, um bom exemplo vale tanto como mil imagens.

E os sindicatos! Alguém ouviu dizer que algum tenha dito aos seus associados que acima dos seus direitos está o dever de serem ponderados, justos e comedidos a exigir direitos? Algum disse que os trabalhadores só podem exigir direitos se eles próprios criarem condições para que eles lhes sejam dados, trabalhando mais, produzindo mais, por patriotismo, por civismo e para garantia dos próprios postos de trabalho? O que querem é lisonjear a malta, incitando-a a exigir mais, sempre mais, e quanto menos se necessitar mais se deve exigir. E então, greves e mais greves! Sem importar os custos sociais e económicos e o que indirectamente e a prazo, prejudicam o próprio trabalhador! Não importa quem paga, quais as consequências! Actualmente seguir, aconselhar o bom senso da “sabedoria das nações” não é seguir o que é mais correcto e aconselhável, para nós e para os outros, para agora e para o futuro, é seguir o “politicamente correcto” do imediato e do mais atractivo.

De vez em quando, há remodelação do Governo, substituição de ministros e secretários de Estado. Logo após a nomeação, lá são eles abordados pelos jornalistas, quais vampiros que se alimentam de sangue, nem que seja de sangue podre, que querem morbidamente saber coisas do recém-nomeado, quais os seus planos, o que vai fazer e o que vai alterar, etc., etc. A mim, quer-me parecer que a única resposta honesta e inteligente era mais ou menos: caros senhores, acabo de ser nomeado, embora não seja totalmente ignorante do que me espera, falta-me saber muito sobre os problemas reais, qual o conteúdo dos dossiers em curso, e, por isso, só depois de me informar e de os estudar convenientemente em todos os pormenores, é que posso fazer algumas declarações.

O leitor ouviu algum novo ministro ou secretário falar desta maneira? Eu não ouvi, pelo contrário, o indivíduo apesar de até ali ter estado fora dos corredores do poder e de ser muito natural que ainda não tenha o conhecimento completo da complexidade do cargo que lhe foi atribuído, logo fala cheio de importância e sabedoria, já senhor de todos os assuntos!

No entanto, é de presumir que são individualidades altamente preparadas, porque nunca tanto como hoje houve tantas cabeças bem pensantes e bem falantes, que sabem de tudo. São os ministros, os secretários e subsecretários, os bastonários, os deputados, os conselheiros, os Presidentes disto e daquilo, os comentadores, os directores gerais. O leitor já reparou na quantidade enorme de sindicatos, de associações, de fundações, de institutos, que há em Portugal, todos dirigidos por gente de grande sabedoria, todos a quererem o bem comum, todos a trabalharem “a bem da Nação”, embora abjurem dessa linguagem? Só que…os bons resultados estão bem à vista…

Nunca houve tão grande inundação de sabedoria académica como na actualidade. As universidades principalmente as particulares e modernas, inventaram cursos científicos (com o aval do Estado!) cuja utilidade e aplicação só os doutorados nesses cursos vão compreender bem, no fim do curso. Há uma proliferação de cursos, em que a Ciência é profusamente subdividida e aumentada, aumentada talvez a querer corresponder à profecia evangélica de que “a ciência aumentará”. Engenharias de todas as etiologias! No entanto, a mim me parece que esses cursos e quem os inventou, têm uma certa analogia com certo chinês que para levar a vida fundou uma escola para estudantes que quisessem saber como caçar dragões. Isso foi há muitos, muitos anos, no tempo em que as galinhas tinham dentes, ou ainda muito antes, quando havia dragões mas já estavam em via de extinção. Pois o homem, fundou uma escola, ensinava a caçar dragões e dava-lhes um diploma. De posse do diploma aí vai o diplomado caçar dragões, mas como não encontrava dragões, que fez ele para viver sem penúria? Fundou ele próprio outra escola, ensinando também ele a caçar dragões!

E assim vamos andando, é o que Deus quiser…

Porque isto é mais verdade do que aquilo que parece, não admira que a par de tanta doutorice haja tanta burrice, tanta incompetência e por arrastamento tanta ganância e tanta corrupção entre quem devia ser o escol do país, e tanta apatia e indiferença da parte da generalidade desse país. Sabe-se bem onde está o mal, mas mal se sabe onde está o remédio e como aplica-lo. Por isso, as poucas vozes que se levantam, não são antídoto poderoso. Uma dessas vozes é este meu escrito, e outra voz, mais poderosa que a minha, mas também ineficaz, é o que se segue, da autoria dum meu colega de trabalho, poema publicado na revista da nossa classe profissional, sem valor literário, mas satírico e muito justo, que retrata esta nossa época:

Já tenho licenciatura / agora sou um doutor. / Tenho montes de cultura. Vou ser ministro? E se for?

Inscrevi-me ao fim do dia, naquela Universidade dos diplomas de inverdade / para testar o que sabia, já de manhã, mal se via, de maneira prematura fiz muito má figura./ Mas mesmo sem saber nada, formei-me na Tabuada / já tenho licenciatura!

Dei cem erros no ditado / e agora o mais curioso / por estar muito nervoso à recta chamei quadrado! / Quando me foi perguntado / se conhecia o reitor / respondi que não senhor / embora fosse meu tio! / Disse mentiras a fio/ Agora sou um doutor.

Com mesquinhez e com tudo, puxei das equivalências / juntei outras mil valências / Deram-me mais um canudo, com diplomas contudo / Era fácil a leitura, deixei de ser um pendura. / Sou político afamado / sou falado em todo o lado, Tenho montes de cultura./ E agora, queiram ou não, mesmo sem nenhum valor/ eu falo que é um primor na Assembleia sentado,/ Para já sou deputado!/ Vou ser ministro? E se for?

 

Antigamente, e mesmo agora, o homem que espera uma operação cirúrgica, diz resignadamente, tristemente: Vou morrer antes? E se morrer? Agora, muito doutor formado às três pancadas, com sorte e compadrios, tem o desplante de dizer ou pelos menos de pensar triunfantemente: Vou ser ministro? E se for?

Uma época que inspira uma literatura desta só pode ser uma época de decadência.                                         aurindo.barbosa@gmail.com     

 

5 de Fev.2013                                     

publicado por Fri-luso às 19:44

Laurentino Sabrosa
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