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Novembro 28 2013


OS MACACOS DO SALTIMBANCO POBRE

 

Há mais de sessenta anos, li, num livro de leituras da quarta classe, uma história que a seguir reproduzo, sem alterar ideias ou conceitos:

 

Um saltimbanco que, como todos da sua arte, andava de terra em terra, tinha ensinado um grupo de macacos a exibir certas habilidades. Lá ia vivendo com muita dificuldade, pelo que não podia dar a cada macaco mais de uma dúzia de bananas por dia. Ele bem gostaria de dar mais, mas o que podia auferir na sua vida de saltimbanco pobre, não permitia.

Começou por dar seis refeições, em cada refeição apenas duas bananas. Era pouco de cada vez, mas como eram seis vezes…

A princípio, os macacos estavam conformados. Mas como, segundo parece, as necessidades alimentares dos macacos não eram devidamente satisfeitas, ao fim de algum tempo os macacos começaram a agitar-se em descontentamento. Já não faziam as habilidades como deviam e guinchavam ruidosamente.

O saltimbanco, sem possibilidades de aumentar a ração, imaginou um truque para tentar contentar os macacos: passou a dar quatro refeições, três bananas de cada vez. Quando os macacos viram a sua refeição aumentada, ficaram muito contentes. Mas, ao fim de algum tempo, viram que continuavam com fome, e outra vez começaram a protestar: lá voltaram eles aos guinchos e a fazer mal o seu trabalho.

O saltimbanco deu voltas à cabeça, e excogitou nova maneira de contentar os macacos. Não tinha possibilidades de dar mais bananas, pelo que passou a dar a cada macaco quatro bananas de cada vez mas apenas três refeições. Agora sim! Os macacos saltaram e guincharam de alegria! Quatro bananas de cada vez! Mas como eram sempre as mesmas doze bananas, ao fim de mais uns tempos, aperceberam-se de que estavam a ser ludibriados. Outra vez voltaram aos seus aflitivos guinchos, outra vez deixaram de fazer bem o seu trabalho.

O saltimbanco arranjou novo estratagema: passou a dar só três refeições: a primeira de três bananas, a segunda de quatro bananas, a terceira de cinco bananas. Eram só três refeições, mas como de refeição em refeição os macacos viam a dose a ser aumentada, foi uma alegria de vida. Ficaram felizes e serenos, por bastante tempo. Mas, talvez sem compreenderem, acabaram por verificar que ainda não era aquilo que os satisfazia.

O saltimbanco já não sabia bem o que fazer. Deu outra vez voltas à cabeça para encontrar uma solução que satisfizesse para sempre os macacos - passou a dar cinco refeições: 1+2+3+2+4. Tantas refeições, e a última com 4 bananas! Outra vez a paz e a satisfação voltou ao bando, mas não por muito tempo.

 

A história não dizia qual foi o desfecho desta querela surda entre os macacos e o saltimbanco. Queria evidenciar o provérbio “Onde não há o rei o perde”. Na verdade, se não há, não há!! não adianta andar a camuflar as realidades como fazia o saltimbanco, ou ignorar as realidades como faziam os macacos. Onde e quando não há, perdem os herdeiros, perde o Rei, perde o Fisco,…

Uma coisa que a história pode evidenciar é que em situações extremas, as consequências de ignorar as realidades, exigindo que haja onde não há, podem ser altamente nefastas. Se os macacos continuassem sempre a exigir e a amofinar a paciência e a imaginação do saltimbanco, talvez ele caísse na solução de cortar as goelas de um deles, remediando a vida com menos um e ter a mesma dúzia de bananas a distribuir.

E agora, eu pergunto: nós, portugueses, estaremos a ser “macacos dum saltimbanco pobre”? Se o ofício de saltimbanco não tivesse desaparecido, eu até diria que sim. Porque, na verdade, quando nos dão por um lado qualquer coisa que anima, por outro lado e sub-repticiamente nos tiram o que anteriormente tinham dado. Dizem-nos: NÃO HÁ! Em muitas coisas se ignoram as realidades e não falta quem, justamente por quem tem fome, injustamente por quem tem fanatismos políticos, esteja a exigir que haja o que não há. O desespero de quem não pode dar porque não há, ainda não deu para degolar ninguém. Mas já deu para uma coisa aproximada: alguns “macacos” emigraram deixando os seus compinchas, para serem menos aqueles por quem pode ser distribuído o pouco que há.

 aurindo.barbosa@gmail.com

publicado por Fri-luso às 17:50

Laurentino Sabrosa
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