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Outubro 17 2013

UM POEMA DE EUGÉNIO DE ANDRADE - Comentário

Tenho presente o seguinte poema de Eugénio de Andrade que, quanto a mim, é uma das belas entre as poesias moderna.As poesias modernas, enfim, talvez não valha a pena fazer comentários.

 

É urgente o amor.

É urgente um barco no mar.

É urgente destruir certas palavras:

Ódio, solidão, crueldade, alguns lamentos

e muitas espadas.

É urgente inventar alegrias, multiplicar os beijos

e as searas.

É urgente descobrir rosas e rios, e

manhãs claras.

Vai o silêncio nos ombros e luz impura

até doer.

É urgente o amor, é urgente permanecer.

 

Apetece-me fazer um comentário, fazendo de conta que voltei aos bancos da escola e que no exame me pediam uma análise desta poesia.

É urgente o amor não só agora que o sabemos tão conspurcado, não só agora mas em todas as épocas e em todos os domínios. Há aqui uma intemporalidade. Grande é a preocupação do poeta e manifesta-a usando repetidamente o aviso – é urgente…é urgente.

Para que o amor seja adquirido e implantado com urgência, é também necessário outras coisas para além das apontadas pelo poeta.

É urgente um barco no mar é um apelo que tem qualquer coisa de ecológico. Poder-se-ia dizer “é urgente uma árvore na floresta”. Tanta coisa se tem visto que tem o aspecto desolador de um mar que soubéssemos sem barcos em toda a sua extensão, onde não se via manifestações da vida humana, onde só pudéssemos supor uma vida “subterrânea”, tao invisível que o tornaria a nossos olhos um “mar morto”.

É urgente o amor, mas também é urgente o trabalho e “amar o amor”, sendo optimista a respeito do amor, para multiplicar os beijos e descobrir manhãs claras. Só assim poderemos banir o que nos pesa e faz doer os ombros – o silêncio doloroso e a luz impura. Agora há mais actualidade que intemporalidade.

Em toda a poesia há uma ideia de mudança que importa promover com urgência, atitude em que é urgente permanecer, seja para pôr barcos no mar, seja para plantar árvores na floresta – acções de trabalho, vida e fé – seja para destruir certas coisas: certas palavras e muitas espadas. É “urgente permanecer” ainda na atitude de elevado ânimo que nos leve a inventar alegrias e a descobrir rosas e rios.

Esta poesia em que tanto se insiste que “é urgente o amor”, parece toda voltada para a fraternidade humana e para a ecologia, entendida esta como boas relações do Homem com a Natureza. Na verdade, vemos referências à necessidade de afastar ódios e de multiplicar as searas.

Não se vislumbra, aparentemente, uma alusão àquele amor dos casais, casados ou não. Talvez entre eles não seja preciso lembrar que é urgente “multiplicar os beijos”. No entanto, o amor entre os casais está talvez mais conspurcado que o amor do Homem pela Natureza, e tanto em perigo como a fraternidade humana. Também entre os casais é “urgente o amor”   e também aí é “urgente permanecer” no amor. Também aí a mudança é urgente – os amantes devem passar a ser namorados, não apenas amantes como agora são. É possível que o poeta tenha pensado neles quando se referiu à luz impura que, pesando nos ombros, até faz doer.

 

Gostaria de saber que nota merecia este “ponto escrito” de um doutor, professor de Português e de Literatura. Se ele (ou ela…) tivesse uma amante, não propriamente uma namorada, ficava logo reprovado e nem sequer ia à prova oral!

                                                                                                       laurindo.barbosa@gmail.com

publicado por Fri-luso às 20:37

Laurentino Sabrosa
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