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Novembro 17 2012

 

FRATERNIDADE NA COLABORAÇÃO

 

A Feira Internacional de Sevilha em 1992 foi uma das coisas mais maravilhosas a que assisti. Não pude deixar de notar as maravilhas que os inúmeros pavilhões podiam patentear ao público, alguns dos quais se tornaram famosos, a tal ponto que mesmo toda a gente os queria visitar, donde resultava que para isso era preciso esperar pacientemente mais de duas horas.

Que bom que seria se aquela beleza e grandiosidade fosse possuída por toda a humanidade! Já naqueles dias se falava muito da fome no mundo e no flagelo da sida. Eu, pelo menos, não pude evitar pensar nisso, a empalidecer a alacridade do dia em que lá estive, e de certa maneira a lamentar que toda a gente parecesse alheia ao sofrimento da Humanidade, existente em paragens talvez não muito distantes.

Duas coisas me ficaram indelevelmente na memória. Quando lá estive, houve um cortejo cheio de carros, tipo “corso de carnaval”. Já não sei bem qual era a finalidade nem a exibição desse cortejo, mas lembro-me de que ele, tal como “corso de carnaval”, deixava rasto de “confettis” e de vário lixo. Pois, apesar da hora tardia, esse lixo era impecavelmente retirado por uma brigada de trabalhadores que seguia na cauda do cortejo, exactamente para mostrar a toda a gente que, afinal, o cortejo não tinha deixado lixo nenhum. Não foi no dia seguinte, nem uma hora depois, foi na própria hora, no momento em que a assistência estava ainda entusiasmada a admirar o cortejo – muitos nem se aperceberam de que o cortejo deixava um rasto de lixo, e quem se apercebeu de que o cortejo deixava um rasto de lixo, pôde ver que, afinal, o cortejo não deixou lixo nenhum. Para mim, foi uma lição de boa organização e até de civismo, que me deixou satisfeito pela Espanha, e me deixou triste por um certo país que eu conheço, onde as coisas não costumam ser nada assim…

Horas antes de assistir a este cortejo, tinha observado num dos pavilhões uma coisa que, relativamente ao que o pavilhão pretendia mostrar ou propagandear junto do grande público, era uma coisa muito secundária, mas que para mim foi a mais importante. Num dos corredores havia dentro de uma grande redoma dois robots que se “entretinham a trabalhar”, construindo uma torre com peças tipo “lego”: dois braços mecânicos que, em perfeita harmonia, sincronicamente, à vez, colocavam a sua peça. E lá iam, ritmicamente, construindo a torre até estar concluída. Acabada a torre, as mãos dos braços mecânicos tocavam-se, simbolicamente num aperto ou encosto fraterno ou mesmo de amoroso abraço.

Depois, os robots voltavam a “trabalhar”, agora não na construção mas na demolição: peça a peça, ritmicamente, sincronicamente, lá iam desmantelando a obra anteriormente feita, após o que, no final, repetiam o encosto de mãos, num gesto simbólico a expressar a satisfação pela obra realizada, com  harmonia e até com fraternidade.

Os braços dos robots não se abraçavam, mas não era preciso tanto para que toda a gente se detivesse dois ou três minutos a apreciar com agrado e divertidamente àquela tarefa. Mas eu e todos aqueles que não se esqueceram de que, a contrastar com a grandeza e brilho daquela Exposição, a Humanidade sofria talvez em paragens não muito distantes, dois terríveis males que ainda hoje não foram debelados, não nos detivemos só a apreciar divertidamente os movimentos dos robots, mas detivemo-nos a meditar na mensagem  que aquele movimento queria transmitir.

Só a colaboração fraterna é construtiva, quer na construção propriamente dita, quer nas demolições programadas e necessárias. Aquele cumprimento mútuo dos robots, mesmo sendo um movimento frio e mecânico, era o amor possível entre eles, ensinando aos circunstantes que devem fazer o mesmo à sua maneira e à sua medida.

Aquele conjunto cibernético, sem consciência do que fazia, transmitia a toda a gente uma mensagem espiritual de amor, de harmonia e de paz, para que todos nós, conscientes do que fazemos, lhes sejamos superiores a construir um mundo do melhor numa colaboração fraterna, desinteressada e acompanhada de olhares e sorrisos silenciosos e amorosos.

15 de Novembro de 2012

laurindo.barbosa@gmail.com

publicado por Fri-luso às 21:03

Laurentino Sabrosa
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