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Janeiro 19 2012

Um tipo de discurso muito importante, são as SÁTIRAS. Modalidade antiquíssima, na sátira procura-se a crítica com intuitos moralizantes dos costumes de uma sociedade, das suas instituições, das ideias predominantes, denunciando  erros e hipocrisias. Podem ser feitas em prosa, em poesia ou em discursos propriamente ditos. Muitos dos sermões do Padre António Vieira são sátiras contra os colonos do Brasil que exploravam desalmadamente os escravos, principalmente nos engenhos de açúcar; outros sermões, pronunciados perante a nobreza da época, eram sátiras dirigidas com grande arrojo à própria nobreza, que com desagrado e desdém o estava a ouvir. É claro que isso lhe acarretou muitos desgostos e sofrimentos. Era o que sucedia a quem tivesse a sua ousadia  Foi o que sucedeu a Gomes Leal, que por causa dessa ousadia foi parar ao Limoeiro. Mas o leitor pode ficar descansado. Em livros, teatro ou discursos pode ser satírico à vontade, porque, modernamente, ninguém se sente visado por uma sátira. As sátiras não são ataques pessoais, são observações na generalidade, e, por isso, como não se citam nomes ou pessoas em concreto, ninguém se sente visado. Toda a gente ri e aprova a justeza da sátira, mas até os próprios visados se sacodem, julgando, sinceramente ou não, que a coisa não é nada com eles. Nota-se isso na reacção dos partidos políticos a certos textos ou discursos de grandes  individualidades nacionais ou internacionais: são avisos ou advertências dirigidas aos partidos e aos políticos em geral, quase todos estão de acordo com a oportunidade e exactidão dos “recados” que foram dados, mas cada político ou partido logo diz : estamos no bom caminho, aquilo não foi dito a pensar em nós.

Muitas sátiras são feitas em tom jocoso e sarcástico, e quanto mais sarcásticas forem mais mordazes são. Um tipo especial de sátira são os PASQUINS, coisa que há muito está arredada, mas pela curiosidade do que foram, é interessante relembrar. Os pasquins têm (ou tinham) uma finalidade diferente, menos nobre, da da sátira. Porque o pasquim era um escrito com que se pretendia ridicularizar com sarcasmo ofensivo e anónimo alguém: uma instituição, uma personalidade importante, ou o próprio Estado. O termo PASQUIM deriva de PASQUINO, nome de uma estátua da antiga Roma, que era uma velha estátua de Hércules a quem puseram esse nome, onde se formou o hábito de dependurar ou afixar os tais escritos anónimos e insultuosos. Mas anteriormente, quem deu o nome à estátua foi um certo sapateiro desse nome, conhecido pela sua má língua, cáustica e desbragada. Ora, havia e ainda há em Roma uma grande estátua de divindade fluvial chamada MARFÓRIO. E, então, eis que se formou o hábito de dar réplica no MARFÓRIO a muitos cartazes satíricos, colocados no PASQUINO. Durante cerca de três séculos foi uma “alegria”, ver e apreciar o reportório de piadas e  comentários, umas vezes cáusticos outras vezes divertidos entre as duas “estátuas falantes”,  falantes através do que lá era afixado.

Hoje o termo pasquim tem o significado de planfleto difamatório sem qualquer valor, que se pode aplicar, por exemplo, a um jornaleco sem aceitação e sem moralidade. Por isso, uma sátira que pretenda influenciar alguém, a corrigir erros, hábitos sociais ou doutrinas, nunca pode degenerar em pasquim, porque perde de imediato valor e credibilidade.

Há séculos que a sátira é praticada em toda Literatura. Já nos antigos gregos foi usada, por exemplo, por Aristófanes nas suas comédias. Na nossa literatura, houve na época medieval as “cantigas de escárnio e maldizer”; o poeta e escritor Sá de Miranda, cultivou a sátira; mais modernamente, tivemos em Eça de Queiroz e Ramalho Ortigão sátiras mais ou menos veladas, sobretudo nas suas conhecidas FARPAS.

Ser satírico através de uma obra, de um discurso, é muito diferente de ser panfletário. Este, usa tom satírico, mas sem serenidade e com violência de termos ofensivos, que normalmente lhe fazem perder a razão que tenha. Por isso, quase ninguém o toma a sério. A sátira pode ter os seus efeitos numa sociedade, mas é caso para perguntar: em que medida é que a humanidade foi levada através da sátira a reconhecer os seus erros, a melhorar a sua vida moral e social? Seria um estudo interessante psicológica e socialmente.

O Padre A. Vieira conseguiu alguma coisa, duvido que Gil Vicente através da sua obra teatral tenha conseguido o mesmo. E, então, hoje em dia, como acima referi, ninguém se sente atingido por uma sátira. Talvez risonhamente acolhida,  considerada oportuna e de valor, mas, no sentir de cada qual, o que na sátira se insinua para ser mudado é só para os outros, ou talvez para ninguém.

 

Nos velhos tempos da instrução primária, dizia-se que FÁBULA era uma história em que os animais falavam entre si como se fossem gente. Nada mais. É uma definição muito simplória que deve ser modificada. Na verdade, nas fábulas, os protagonistas da acção são animais, que são imaginados a falar e a ter sentimentos, em episódios de vida semelhantes aos dos seres humanos, mas  são histórias, em prosa ou em verso, que pretendem dar aos seres humanos lições de bom senso e de rectidão. Nessas histórias há elevados conceitos morais e filosóficos a respeito da nossa conduta, do que podemos esperar dos outros conforme os nossos próprios actos, etc.  São normas de vida que, aproveitadas, concorrem para a felicidade. A maldade e a perfídia têm sempre o seu castigo, o bem vence sempre o mal. Há, portanto, uma maneira muito diferente da da sátira, a pretender chamar a atenção, de corrigir o que moral, social e individualmente não é devido.

É um tipo de literatura também muito antigo. Entre os antigos gregos, ficaram célebres as fábulas de Fedro e as de Esopo. Na era moderna, as fábulas mais conhecidas são as de La Fontaine.   

Todas as culturas têm as suas fábulas, diferentes em pormenores, nos animais utilizados e no simbolismo que se associa a cada animal. Assim, e de uma maneira geral, o lobo é símbolo do glutão insaciável; a raposa é símbolo da esperteza desleal; a lebre, representa a agilidade; o leão, a força e dignidade de rei ; a hiena, a maldade; a rola, a mansidão e a pureza; o mocho é o animal sábio. É curioso notar que o cão, que entre nós é símbolo de dedicação, em algumas culturas é símbolo de perigo e de ferocidade.

Esperemos que as fábulas tenham, sobretudo na  educação da juventude,  a quem  mais se destinam,  maior impacto que as sátiras têm na sociedade.

 

laurindo.barbosa@gmail.com

publicado por Fri-luso às 10:40

Laurentino Sabrosa
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