AUTORES

Junho 26 2016

SABER LER

 

Tive um amigo, com o antigo 7ºano do liceu, que lia mesmo muito. Comprava livros e mais livros e, quando faleceu, deixou uma boa biblioteca em quantidade e, vá lá, em qualidade.

No entanto, sempre me quis parecer que tinha um nível intelectual muito rasteiro. Instalado confortavelmente no seu emprego numa companhia de seguros, cristalizou a sua vida na rotina do serviço até à reforma, e estagnou a sua actividade intelectual em cinquenta por cento do que aprendeu no liceu e que a sua memória conseguiu reter até morrer.

Ler livros e mais livros parecia ser a segunda rotina para as horas em que estava sem preocupações de serviço. Nunca lhe notei uma elevação de conceitos e de opiniões haurida das suas leituras. Não escrevia nada, nunca falava deste ou daquele escritor ou poeta, que tinha esta ou aquela ideia com a qual concordava ou discordava.

Um dos livros que ele tinha na biblioteca que por morte legou, era o HAMLET, a célebre peça teatral de Shakespeare. Fui eu que lhe ofereci esse livro, por saber que ainda não o tinha e, muito secretamente, para analisar a sua reacção e aproveitamento da leitura. Três meses depois, perguntei-lhe se ele já tinha lido o livro. Disse-me que sim. Então, perguntei-lhe:

- E, então, que tal? Gostaste? É uma grande obra, não é ?

- Ora, o Hamlet era meio maluco…

Ler esta obra de Shakespeare, uma das principais deste grande dramaturgo e poeta, e concluir, apenas e erradamente, que Hamlet era meio ou totalmente maluco, é o que eu chamo NÃO SABER LER. Ser insensível às frases simultaneamente poéticas e filosóficas de Shakespeare, coisa para que muito poucos autores têm talento, sem apreciar ou não a poesia, sem estar de acordo ou não com a filosofia, acho que revela uma grande limitação da instrução e da cultura.  

Na verdade, o autor nesta sua obra expõe, talvez mais do em qualquer outra, os seus conceitos sobre a psicologia das pessoas e a sua filosofia da vida e da morte.

Começa por ter por tema o que é mais vulgar do que parece, ou seja, o secreto ambiente de perfídia, de traição e até de crimes entre as altas esferas da sociedade, mesmo daquela sociedade que devia ser um relicário de virtudes. Hamlet é figura ímpar de elevação moral e espiritual entre o lamaçal da corte de que era filho, e por isso muito teve de sofrer.

Muitos são os passos em que isso se evidencia, em que eu gostaria que o meu amigo tivesse reparado e quem sabe ler repara para seu proveito moral e espiritual. Apenas alguns:

Quando Horácio, um amigo de Hamlet, se mostra surpreendido perante coisas que não estava a compreender, Hamlet solta-lhe uma frase: Há mais coisas no Céu e na Terra do que sonha a tua filosofia. É um ensinamento que todos devemos ter sempre presente. Noutro ponto, quando Polónio, camareiro-mor, promete tratar um grupo de comediantes que protagonizou uma peça teatral no palácio, segundo o seu merecimento, Hamlet diz-lhe: Muito melhor! Trata-os segundo a tua honra e categoria e, assim, quanto menor for o merecimento deles, maior é a tua magnanimidade. É um convite a sermos magnânimos para todos, independentemente deles serem merecedores ou não. Aliás, é assim que Deus procede para connosco. Seriamos bem infelizes se Deus nos favorecesse só segundo os nossos méritos.

Com muito significado, quanto a mim, é uma conversa entre o rei, que já tinha assassinado o pai de Hamlet, e Laertes, filho do referido Polónio, na qual se propõe assassinar o próprio Hamlet, pela segunda vez, para dele se livrar. O plano consiste em provocar Hamlet para um duelo de esgrima com o tal Laertes, em que o florete que lhe vai ser entregue tem a ponta envenenada. E o rei, então, diz: Como ele é muito confiado, extremamente generoso e à margem de todo o ardil, não examinará os floretes e poderás escolher a arma que com uma estocada hábil será suficiente. Imagine-se! Os reconhecidamente bons sentimentos de uma pessoa, a serem usados para a sua própria perdição! Também isto sucede na vida real de muitas pessoas, mas raras vezes estamos precavidos.

Parece que SABER LER, para meditar e assimilar estas coisas para proveito moral e espiritual, não é tão fácil como parece. Será dom de Deus que nem a todos é concedido, até porque só será concedido não a quem conservar na sua formação apenas metade do que aprendeu na escola, mas, pelo contrário, ter a preocupação de saber mais do que na escola lhe ensinaram.

laurindo.barbosa@gmail.com

publicado por Fri-luso às 15:33

Junho 26 2016

Sans titre-3.jpg

 

publicado por Fri-luso às 15:31

Junho 26 2016

SABEDORIA

 

                           Quem não sabe e sabe que não sabe, é humilde.  

                           Ensina-o.

                           Quem sabe e não sabe que sabe, está dormindo.

                           Acorda-o

                          Quem sabe e sabe que sabe, é um sábio.

                           Segue-o

                                                                               Provérbio árabe

 

Quem tomar muito à letra o provérbio, pode, ao menos por exclusão de partes, considerar que se situa na última categoria.

Porém, o que é a sabedoria? Como se adquire?

Querer ter sabedoria já é ter um pouco de sabedoria, mas é preciso subir mais alguns degraus para verdadeiramente se ter sabedoria. O único a ter Sabedoria em pleno, que é a própria Sabedoria, a fonte da Sabedoria, é Deus, e querer ter sabedoria é um tanto ousado por se querer aproximar muito de Deus. Mas se Deus nos disse “sede perfeitos como vosso Pai do Céu é perfeito”, então também nos convida a adquirir Sabedoria, porque será difícil lutar pela perfeição, se não houver sabedoria.

Ter sabedoria é procurar ser diligente e prudente para bem resolvermos os problemas da vida e bem lidarmos com as pessoas e com as coisas, para não nos termos de arrepender ou de nos censurar perante maus resultados; ter sabedoria é proceder segundo a consciência, depois de ter a sabedoria de a instruir e educar, para que ela não congemine teorias e opiniões subordinadas ao “politicamente correcto”, segundo o nosso lucro e conveniência, ou ao que é socialmente distinto, segundo a nossa vaidade ou prestígio.

A sabedoria é uma inteligência que dispensa memória, e é uma arte de viver que dispensa a facúndia de Calíope e o enciclopedismo de Latim e Filosofia ou de Física e Astronomia. A sabedoria nasce da Sabedoria e passa a ser a sua própria consequência, pelo que desde

logo irriga a consciência de sãos princípios, a informa das virtudes e lhe concede um perfeito discernimento, para evitar o que lhe é contrário. Passa a ser ciência infusa, que promana da fonte divina, que concedeu a Salomão a grande e verdadeira Sabedoria, de que a nossa sabedoria, se a tivermos, deseja ter nem que seja uma pequena parte.

Ter sabedoria é saber mais do que a escola ensinou, é saber mais que Sócrates, que sabia apenas que nada sabia. Nestes tempos neotestamentários, para termos sabedoria é preciso saber e sentir que, perante quem concede a sabedoria, nada sabemos, nada valemos, nada podemos, nada merecemos. Desta sabedoria, nasce a sabedoria, que existe sem se sentir a si própria, de vivermos com fé, amor e alegria, aguardando serenamente a hora em que a morte de todos a todos e a Ele nos una.

laurindo.barbosa@gmail.com

 

publicado por Fri-luso às 15:28

Maio 25 2016

Sans tikl.1.jpg

 

publicado por Fri-luso às 14:31

Junho 19 2015

ECONOMIA E POLÍTICA

A palavra ECONOMIA deriva do grego oikos, casa e nemos, lei. Por isso, esta palavra etimologicamente significa governo ou administração da casa. Ora, parece que este pormenor é muito desconhecido de muitos intelectuais da Economia, embora de vez em quando haja vozes mais sensatas, que dizem que governar um país é quase o mesmo que governar uma casa. É só uma questão de “volume de negócio”. Por causa do desconhecimento do que é uma boa Economia, as crises económicas de um país passam a ser também crises financeiras. Na vida de cada qual de nós ou de uma empresa, até pode haver, provisoriamente, uma boa situação económica e uma má situação financeira, o que tem um certo sabor a paradoxo.

Há aproximadamente setenta anos, no currículo escolar, a cadeira em que se estudava estes assuntos tinha o nome de ECONOMIA POLÍTICA. Ora, a palavra Política deriva do grego polis, cidade, e, então, ECONOMIA POLÍTICA quer significar governo ou administração da cidade, ou, por extensão de significado de “cidade”, governo da economia do país.

Modernamente, há muitos economistas que se arvoram em políticos e muitos políticos que se arvoram em economistas . Quase todos eles ignoram, ou põem de lado, o nobre significado de economia e de política. Não conhecem Jean Baptiste Say nem Adam Smith, cujas obras foram monumentos na sua época, no aspecto económico, e se calhar nunca ouviram falar de David Ricardo, um Mestre na área financeira. Este Mestre ousou contrariar Napoleão, por não estar de acordo com o seu sistema de impostos. Não se submeteu a uma Política (administração do país) que considerava errada.

Quase teríamos implantado o Céu na Terra, se toda a Economia fosse o que devia ser, não subordinada ao “politicamente correto”, e se toda a Política fosse o que devia ser, não subordinada ao proveito de uns tantos. Seria bom que todos os economistas soubessem muito de Política, e que todos os políticos soubessem muito de Economia porque, ao fim e ao cabo, Política e Economia são duas irmãs gémeas que visam, quando bem exercidas, a boa administração da casa, ou, como diria Adam Smith, “o progresso dos povos e a riqueza das Nações”.

                                                         laurindo.barbosa@gmail.com

publicado por Fri-luso às 15:54

Abril 26 2015

UM HOMEM EXTRAORDINÁRIO

Pela teologia católica, muito ensinada pelos nossos clérigos, especialmente pelos mais “conservadores”, ninguém é tão perfeito e tão isento de pecado que posse entrar no Céu, sem a purificação do Purgatório.

No entanto, temos o caso   do “bom ladrão”, que, ao lado de Jesus crucificado, ao se arrepender da sua vida criminosa e pedir perdão, recebeu o supremo consolo da grande promessa de, pouco tempo depois, entrar com o mesmo Cristo no Paraíso.

Haverá mais algum caso semelhante?   Nenhum daqueles “grandes   santos” e gloriosos mártires teve igual privilégio? Oficialmente, nada se sabe. Talvez São Paulo, pois esse foi arrebatado em êxtase ao Céu, onde lhe foi dado viver coisas inenarráveis e   emoções inefáveis.

Mas eu conheci um homem, meu vizinho, uma pessoa aparentemente insignificante que, eu acredito, também foi levado directamente para o Paraíso . São pensamentos e sentimentos pessoais quevou justificar.

Era o Sr. Gomes Ferreira, um homem de nome banalíssimo, que nada tinha de distinto de maneiras e de fidalguia de porte.   Quer no rosto, quer no vestuário, quer nas mãos e na própria voz, quer em toda a sua compleição, mostrava ser um homem sem fidalguias, sem ilustração social e sem graus académicos . No entanto, para quem com ele se relacionasse e bem observasse, tinha várias virtudes.

Era totalmente franco e sem hipocrisias, mesmo que tivesse de ser rude, como de-facto muitas vezes era. De certa vez, entrou no escritório do patrão da fábrica onde como capataz trabalhava, increpando-o violentamente, por causa de certa situação que ele tinha criado contra um dos seus subordinados. Arriscou-se a ser despedido, mas nada o deteve. Venceu, o patrão reconsiderou, a situação foi resolvida segundo a justiça do Sr. Gomes.

Outra característica deste Sr. Gomes era a sua devoção à Igreja, à Virgem, à oração e a alguns santos, poucos, de quem tão repetidamente lia a biografia que a sabia de cor. Aliás, as suas leituras reduziam-se a estas 3 ou 4 biografias   e aos 4 evangelhos que também sabia de cor , à força de tanto os ler. Nunca faltava a uma Missa de Domingo e, mesmo sem saber cantar, sempre cantava como sabia e à maneira dele. Era curioso estar a seu lado e ouvi-lo : muitos cânticos têm várias versões, mas ele só sabia uma, e era dessa maneira que ele cantava, fosse qual fosse a que o coro tivesse adoptado . Ele cantava, com a sua voz rouca e totalmente desafinada, mas com o maior à-vontade do mundo, indiferente a alguns olhares reprovadores. Rezava em casa todos os dias o Terço, e se alguém fosse lá a casa nessa hora, a filha atendia, mas recusava amavelmente a visita.

Ora, na paróquia foi fundada uma obra sócio-caritativa, de carácter profundamente religioso e ele foi um dos fundadores, ao lado de outros paroquianos. Foi no tempo da Segunda Grande Guerra, havia muita gente carenciada e muitas situações de miséria. Apesar de não ser pessoa altamente considerada, foi o principal obreiro da Obra, especialmente na angariação de fundos e de subscritores. A favor dos pobres, não se acanhava ou envergonhava de pedir, não se poupava a esforços, e quando alguém, mesmo que fosse um sacerdote, se lhe negava, lá prègava, às vezes sem qualquer delicadeza, um sermão baseado no Evangelho, sobre a Caridade e o serviço – “pàzadas de Evangelho”, como ele próprio dizia. Para ele a Bíblia era só o Evangelho, e o Evangelho era para ser cumprido à letra, não havia imagens ou sentidos figurados, hipérboles literárias ou linguagem apocalíptica.

Por isso, quando casou uma filha, não convidou vizinhos, amigos, nem nenhum senhor fulano de tal – os seus convidados foram os pobres, os assistidos pela instituição que ajudara a fundar e para a qual continuava a trabalhar. Era notável a sua dedicação aos pobres, concedendo-lhes o que precisavam, tanto quanto possível e estivesse ao seu alcance. Uma família de 3 ou 4 pessoas morava numa bouça, num casebre em condições indignas e sem conforto. Ligado à construção civil, com materiais que já tinha e com o que conseguiu na empresa em que trabalhava, remodelou quase sozinho a habitação daquela família para ela ter a dignidade e o conforto mínimo, devidos a seres humanos.

 

Como sucede com toda a gente, o sr. Gomes Ferreira foi envelhecendo e piorando dos seus males. Um dia foi para o hospital, mas o seu estado de saúde estava tão deteriorado que não

era de aconselhar a operação de ablação da perna que seria conveniente. A única coisa a fazer, era tratar de lhe proporcionar a breve trecho, uma morte o mais serena possível. Por esses dias da sua estada no hospital, o sr. Gomes Ferreira disse à filha e genro que o visitavam: Fiquem a saber que eu amanhã ao meio dia vou morrer.

Eles, pensando que o pai estivesse perturbado da cabeça a dizer coisas inconsequentes, limitaram-se a dizer : Oh! Pai! Não diga uma coisa dessas. Só Deus sabe, e ainda vai estar muito tempo junto de nós.

– Não, não!– disse o pai – Cristo apareceu-me e disse que me vinha buscar amanhã ao meio dia . Filha e genro nada disseram, mas ficaram a pensar que o pai estava de facto de cérebro muito perturbado.

A realidade, porém, foi que ao meio dia do dia seguinte ele se extinguiu serenamente.

É possível que este facto verídico possa ter várias interpretações ou conclusões. Cada qual poderá ter a que lhe parecer mais justa ou exacta. O leitor já sabe qual é a minha.

laurindo.barbosa@gmail.com

publicado por Fri-luso às 17:10

Março 10 2015

APLAUSOS E ASSINATURAS

Na antiga Roma, houve um certo senador de nome Lucius Antónius Rufius Ápius. Este senhor ficou célebre à sua maneira, tão célebre que enriqueceu o vocabulário com a sua assinatura, que ele sintetizava em Larapius. Como era manifesta e publicamente desonesto, corrupto, desta sua assinatura resultou por ironia e para seu opróbrio, sentido ou não, mas opróbrio, o termo larápio, cujo significado é bem conhecido. O homem não prezava a sua assinatura.

Hoje em dia, quem observa o mundo e ausculta a vida social, chega à conclusão de que há muito quem faça o mesmo, e se o seu nome em assinatura não dá origem a um significado vergonhoso, é porque a vergonha se encontra num vale de penumbras e porque já houve alguém que há muitos séculos lhe roubou a vez.

Mas a verdade é que, para bem pessoal e de todos, seria óptimo que cada qual desse à sua assinatura a dignidade que ela merece. Esbanjar a assinatura, semear a sua assinatura a esmo, é banalizar a assinatura e fazer com que ela perca o prestígio que toda a assinatura devia ter. Está muito em moda, na internet, mensagens em que nos pedem a nossa assinatura a favor de assuntos de toda espécie, sobretudo sociais e caritativos. Às vezes não se sabe bem quem são os beneficiados por colaborarmos com a assinatura nessas causas. Mesmo que não haja perigo, creio bem que devemos ser parcos na distribuição da assinatura, para ela ser sempre tão prezada com deve.

Conheci um tal “sr. doutor” que morava em Vila N. de Gaia e que, sendo ferozmente republicano e anti-salazarista, assinava qualquer documento, carta, petição, manifesto, o que quer que fosse contra a situação, como era hábito dizer-se naquela época. Assinou tudo, dezenas ou até centenas de coisas. Os promotores já sabiam, iam ter com o Dr. Mário, e a sua assinatura era certinha. Que valor, ao fim e ao cabo, tinha tal assinatura, para além de ser mais uma a encher papel?

Paralelamente a este esbanjar de assinaturas, concedendo-as a torto e a direito, há o esbanjamento dos aplausos, concedendo-os também indiscriminadamente a quem os merece ou não. Como já tenho dito aos meus leitores e amigos, acho que hoje em dia, e já desde há muito, muitíssima gente deixou de ter sentido artístico e sentido crítico, pelo que com qualquer coisa se diverte e a tudo bate palmas. Há tempos um sacerdote, numa festa de Natal, ficou justamente escandalizado com uma canção cantada por um rapaz muito jovem, cuja letra era muito imprópria e até ofensiva contra os valores cristãos e natalícios.

Pois no fim toda a gente bateu palmas, mas o sacerdote e mais duas pessoas saíram de imediato, duplamente indignados, pelas palmas concedidas e pela letra que devia ser revoltante para quem participava numa festa de Natal. Muito possivelmente, essas pessoas, também concederão a sua assinatura negligentemente, a qualquer coisa e de qualquer maneira. Aplausos e assinaturas revelam a um bom psicólogo muito a respeito de uma pessoa.

A assinatura de cada qual deve ser um bem a preservar, como se fosse um brasão de nobreza, a mostrar um STATUS de dignidade. Todos deviam dizer: a minha assinatura sou eu, a minha assinatura é a minha personalidade, não pela beleza caligráfica, mas porque a minha assinatura diz tudo, na minha assinatura estou todo.

Aplausos e assinaturas não devem ser distribuídas sem cultura e sem inteligência.

LAURINDO FERNANDES BARBOSA

(Obsignatio mea omnis dixit; in obsignatione mea totus sum)

publicado por Fri-luso às 16:35

Janeiro 25 2015

CANTIGAS PROFANAS E CANçÕES RELIGIOSAS

 

Há muitos anos, havia por aqui na zona em que sempre vivi, uma canção popular em que se cantava:

 

Acabou-se, acabou-se,acabou-se,

Acabou-se a minha alegria.

Tenho pai, tenho mãe, tenho tudo,

Só me falta o amor da Maria.

 

Vemos facilmente que se trata de uma canção de sentimentos tristes. No entanto, quem como eu se lembrar desta canção, sabe que era cantada em música muito alegre, mesmo festiva. A canção, como lhe chamei, passou a ser uma vulgar cantiga, sem “seriedade” e valor poético, por não haver consonância entre a letra e a música.

Também me lembro de que em certo Festival da Canção, com a habitual participação de Portugal, através da RTP, uma das canções apresentadas, desta vez por um dos países nórdicos, enfermava do mesmo defeito, se é que isso é defeito. Foi o nosso apresentador do espectáculo que nos explicou que a referida canção, cantada na língua deles, era de letra extraordinariamente triste, mas de música muito alegre e vivaz. Foi coisa de tal maneira estranha e notória que ele se sentiu na obrigação de a ela se referir, como informação e curiosidade. Uma cantiga ou canção profana, em que tal discrepância sucede, perde valor sentimental, mais ainda do que seria se fosse de letra alegre mas cantada em toada de tristeza. Passa a ser uma fantasia sem nexo, sem lógica, pelo que apenas responsabiliza, quando muito, quem compôs a música nada de acordo com a letra.

 

Que se passa se se tratar de um cântico religioso? Em geral, nos cânticos religiosos não há discrepâncias entre o significado dos termos e o tom musical. Os cânticos religiosos, letra e música, em maior ou menor grau, são manifestações de alegria, mas não podem ser cantados com a ligeireza que muitas vezes se observa nas cantigas populares e profanas. Um cântico religioso é mais ou menos directamente uma oração. Consideremos a seguinte quadra:

 

Humilde culto vos prestamos

Do nosso afecto em terno ardor.

A vossos pés vos consagramos

Virgem celeste o nosso amor.

 

Seja qual for a música, esta quadra é uma oração, e se for cantada por quem não ama a Virgem, passa a ser na sua boca uma fantasia ou, mesmo, uma hipocrisia. Vejamos ainda:

 

Como posso ser feliz

Se ao pobre meu irmão,

eu não ouço o que ele diz

e lhe fecho o coração ?

 

É uma pergunta que deve ter uma resposta silenciosa mas óbvia da parte de quem se abalançar a cantá-la: quando eu encontrar alguém carenciado, vou prestar-lhe atenção e auxiliá-lo no que puder, pois de outra maneira não tenho direito à felicidade. Se alguém cantar isto por cantar, não fazendo corresponder a acção pessoal com a letra do que cantou, tudo fica degenerado e, porventura, pode mesmo dar um péssimo testemunho de vida.

Uma canção ou cantiga popular pode ser, e às vezes é mesmo, uma diversão ou uma falácia. Um cântico religioso, não. Um cântico religioso é sério e responsabilizante.

                                        

                                                             laurindo.barbos@gmail.com

 

publicado por Fri-luso às 09:40

Janeiro 23 2015

ALGUMAS DIVAGAÇÕES SOBRE

A  MATEMÁTICA

 

Nas conversas entre amigos e colegas, de vez em quando vêm à baila assuntos linguísticos, como, por exemplo, as designações dos habitantes dos países e das várias localidades. Uma coisa interessante e prática é organizar duas listas por ordem alfabética: uma, de países e localidades, indicando-se a designação dos respectivos habitantes; outra, de habitantes, com a indicação dos países e localidades que lhes correspondem.

Mas… que tem isso a ver com a Matemática? Se o leitor se agarrar às listas na sua frieza e utilidade, de facto dificilmente descobrirá qualquer vínculo. Porém, se o leitor considerar que as listas são a formação dos gentílicos a partir dos topónimos, a relação com a Matemática já não é assim tão distante, pois é uma parte da Gramática, e devemos considerar a Gramática como a Matemática da Linguagem. É a sua disciplina, o seu rigor para que todos nos possamos entender com correcção e beleza. Fala-se muitas vezes na linguagem dos números. Os números 7 e 40 são muitas vezes referidos na Bíblia, com grande significado e simbolismo. Por outro lado, a linguagem torna-se mais clara e expressiva se for expressa em termos matemáticos. Assim o considerou o Papa João XXIII, quando reduziu a Paz a uma simples fórmula matemática:

 

PAZ = VERDADE + JUSTIÇA + LIBERDADE + AMOR

 

Acho curioso notar que a Matemática, sendo, por assim dizer, uma Ciência-gigante que a todas as outras abraça, tem um vocabulário técnico reduzido, ou assim podemos considerar, por esse vocabulário estar de tal maneira inserido na nossa linguagem diária que mal damos por isso. Todos nós falamos de linhas paralelas, quadrados e cubos mágicos, simetrias e assimetrias, gramas de assucar e outros ingredientes para uma boa culinária, círculos, circunferências e tangentes, etc., etc. São-nos familiares os triângulos, os números pares e os números ímpares, e, se o engenheiro e o arquitecto muito precisam da Matemática, o pedreiro e o carpinteiro também.

Podemos classificar de matemático o que obedece a uma norma ou lógica. Os gentílicos de que acima se falou, mesmo os mais irregulares em relação aos topónimos, não foram formados por capricho dos deuses. A própria linguagem de Deus tem, por vezes, algo de matemático: perdoa não sete vezes mas setenta vezes sete, isto para dizer que devemos perdoar sempre. Platão exclamou: abençoa--nos divino número. Mal ele sabia, apesar de tão sábio, quanto, muitos séculos depois, o homem viria a depender desse “ser”, quanto viveria sob o seu império e sob o seu fascínio. Já desde há muito, só o homem “numerado” partilha do progresso e da civilização. Todos temos muitos números: bilhete de identidade, fiscal de contribuinte, de eleitor, de sócio desta ou daquela colectividade, da porta da rua, do telefone, de beneficiários da Previdência, de depositantes num Banco, de doentes num hospital ou de presidiários na cadeia se lá estivermos, número de horas de trabalho, de dias de férias, etc. , etc.

Somos, por assim dizer, escravos do número. Escravatura dolorosa? Se o número tem essência divina como acreditava Platão, então o seu jugo deve ser suave, auxiliador, que até se harmoniza com Deus. Quem vive sem conta, vive sem honra, o que quer dizer que para cumprirmos a lei de Deus, temos de nos subordinar ao número, para deitarmos contas à vida e vivermos matematicamente, com conta, peso e medida. Todos os números são nossos amigos. Alguns, segundo parece, têm tanto empenho em o mostrar, que nós acabamos por considerá-los da família, chamando-lhes números primos… Outros, para nos dar o exemplo, num esforço paternal e educativo, quiseram ser chamados números perfeitos… Que é um número perfeito? Nos compêndios de Matemática, encontra-se uma definição que não cabe aqui ser transcrita. Mas na minha Matemática transcendental, sem ser transcendente, existe um teorema dos números perfeitos, aplicável aos seres humanos e só a eles, que reza assim:

É condição necessária e suficiente para se ser número perfeito,

1º.ser caso notável da multiplicação

2º.não ser conjunto vazio

 

A demonstração deste teorema, nada fácil, fica a cargo do leitor. Quanto melhor fizer essa demonstração, melhores são os frutos que, em prazo mais ou menos longo, disso colherá.

 

Na criação do Mundo, do Cosmos, Deus parece ter usado da maneira mais perfeita a Matemática. As leis que regulam a gravidade, o movimento dos astros, a velocidade do som e da luz, são algumas realizações da mais excelsa Matemática, criada por Deus, numa espantosa harmonia, uma Mecânica Celeste que por ter sido criada por Deus é também celestial. Mediante o dom da inteligência que foi concedido ao Homem, foi possível devassar muito da Matemática de Deus, e usar dessa Matemática para fazer circular comboios, voar aviões, flutuar paquetes, prever eclipses, criar a informática, etc. etc.

É bom que se saiba que a Matemática é muito mais que números, equações, inequações, problemas de engenharia, de idades ou de velocidades mais ou menos difíceis. O cultivo da Matemática proporciona em toda a vida pessoal agudeza de raciocínio, vivacidade de espírito, agilidade de dedução e atenção para as chamadas “perguntas de algibeira”. Pascal, um dos grandes matemáticos, diz mesmo que a Matemática dá a quem a cultiva um sentimento especial. Podemos cultivar, assim, a Matemática para nosso proveito moral e espiritual. Como sabemos, a Matemática pode elaborar muitos gráficos em que se analisa: a produção industrial, o consumo de produtos agrícolas, as exportações, importações e a natalidade num país, e, além de muitos outros, a gravidade dos terramotos. Pascal não deixa de ter razão, e, então, o cultivo da Matemática nos dará uma vida equilibrada e serena, vivendo com conta, peso e medida, uma vida em que tentamos ser número perfeito, uma vida cujo gráfico nunca será equiparado a um gráfico de terramoto.

laurindo.barbosa@gmail.com

publicado por Fri-luso às 09:34

Janeiro 23 2015

O HOMEM SANDWICH  

O João Alberto era um dos muitos sem-abrigo que vivia numa grande cidade, vida para a qual foi arrastado por insânia, por má fortuna, talvez e também por “amor ardente” a alguém, miscelânea que tendo começado por um grande atraso cultural, culminou numa grande indolência. Apesar disso, um dia, começou a ficar saturado daquela vida sórdida e mesquinha, e começou a dar tratos à cabeça como seria possível sair dela. Ele gostaria de trabalhar. Mas, agora, quem o aceitaria? Mais por pessimismo que por inteligência, reconhecia que não tinha instrução, tinha passado a não ter robustez para trabalhos pesados, e, olhando por si abaixo, viu bem que nem sequer tinha roupa que lhe permitisse ir oferecer-se a um centro de emprego. Havia muito tempo que não se via a um espelho, mas se reparasse na imagem que de si lhe davam algumas montras ou vidraças por onde de vez em quando passava, ainda mais esmagado se sentiria. Na verdade, barba hirsuta, face magra e esquálida, não o recomendavam para nada nem a ninguém, infundindo, mesmo, receios ou suspeitas. De pensamento em pensamento, acabou por concluir que nem sequer para pedir tinha habilidade. Vivia muito alheio ao mundo circundante, mas tinha ouvido dizer, uma vez por outra, que os mendigos, grande parte deles se não todos, viviam bem, e se continuavam na pedinchice já não era por necessidade, mas porque era rendoso. Mas ele, não! Já em tempos tinha tentado, mas sem qualquer resultado animador, porque sempre se embaraçava e retraía. Todos se afastavam! Todas as portas fechadas!

Enquanto cogitava, um dia, encontrou casualmente um comparsa de vida, homem que lhe tinha dito ser conhecido por Chico da Eira. Tinha desaparecido havia bastante tempo, mas eis que voltava, não feito fidalgo mas de melhor aspecto, mais corado e mais nutrido.

À pergunta espantada de João Alberto, ele respondeu com um sorriso, parecendo muito satisfeito:

– Ora, estive preso! Vi um homem sair do Banco e meter à pressa uma carteira com dinheiro no bolso de trás das calças. Pareceu-me fácil roubar-lhe a carteira. Mas por azar meu não foi, o homem não ia tão preocupado e distraído como me pareceu, deu por ela, agrediu-me e eu defendi-me, armou-se burburinho, fui logo preso por roubo e agressão. E foram seis meses para cima do lombo!

–Parece que te fizeram bem – disse o Alberto – a tua cara está mais cheia e o lombo maior!

– Parece que sim.

– E então que vais agora fazer?

– Sei lá! Nada! Peço aqui, peço acolá, vou à sopa dos pobres, até um dia, quando for para o hospital, para a morgue, o que calhar…

– Ou para a cadeia – disse a rir-se o Alberto.

– Sei lá! Talvez… talvez… o diabo não é tão feio como o pintam – respondeu o Chico, que se afastou sem mais conversas, parecendo querer mostrar que, apesar de tudo, preferia a sua vida de vadiagem.

 

O João Alberto continuou a matutar. Nunca lhe tinha passado pela cabeça a ideia de roubar. E se ele fizesse o mesmo? Não! porque… um dia, deu um involuntário encontrão num transeunte, e este, olhando para ele, disse: ó porcalhão, há por aí balneários, porcalhão! e vê lá se tens cuidado a andar na rua! Outro transeunte que passava muito perto e ouviu o primeiro, disse-lhe por sua vez: olhe que vale mais ser porcalhão que ladrão! O outro ouviu e não retrucou, principalmente porque viu que aquilo era uma alusão a ele ser reconhecido como carteirista. No dia seguinte, João Alberto casualmente encontrou o seu defensor, que o informou disso mesmo, e, então, até se sentiu superior. Ser ladrão? Nunca! Já tinha verificado que não tinha habilidade para pedir. Ficou a pensar que nem sequer podia pensar em roubar. Nada feito, nenhuma saída, a não ser continuar na sua vida de agora, esperando a ida “para o hospital, para a morgue, o que calhar”… conforme tinha dito o Chico da Eira.

Mas enganou-se. Em certo fim de tarde, em que ele deambulava a vasculhar o lixo do dia, à procura de alguma coisa para comer ou, pelo menos, umas pontas de cigarro e cartões ou jornais para lhe servirem de lençóis e cobertores, alguém se acercou dele e lhe disse:

– Preciso de falar consigo.

João Alberto ficou alvoroçado. Quem era o homem? Que queria ele? Ficou mesmo assustado, talvez mais do que ficaria um cidadão da “gente fina” se fosse ele, João, a ter, junto desse cidadão, aquela iniciativa.

Mas o tal não se apercebeu ou fingiu não ver o constrangimento dele, e continuou:

– Quer trabalhar para mim? Preciso de si para ser o meu “homem-sandwich”.

– Homem quê?! Que é isso?

– Quero que você ande pelas ruas da cidade com dois cartazes de anúncios, um pendente do peito e outro das costas, seguros nos ombros. Tenho uma casa de penhores, compro e vendo relógios, ouro e joias, e quero fazer publicidade. Não é preciso sabedoria. Anda, anda pela cidade nas ruas mais movimentadas, quando estiver cansado descansa a sentar-se em qualquer lado, só com a preocupação de ter sempre os cartazes bem visíveis. Ora veja bem – concluiu o empresário a querer convencer e a amenizar o assunto – é um serviço tão fácil que mesmo quando está a descansar está a trabalhar!

– E quanto me paga por isso?

– Dou-lhe dez euros por dia, de Segunda a Sábado.

– SÓóóó?!!

– Acha pouco? Você anda por aí ao Deus dará sem ganhar nenhum! Mas olhe, se quiser trabalhar também ao Domingo, dou-lhe por cada Domingo vinte euros. E além disso vamos aqui combinar uma coisa. Tenho nas traseiras da minha casa um quarto jeitoso para si. Enquanto estiver ao meu serviço, vai lá pousar os cartazes e fica no quarto. E além disso, convém você melhorar um pouco essa cara e essa roupa. Vai ter um bom lavatório, e também lhe posso dar um fato, calças e casaco, que está por lá arrumado. Você é da minha altura, e de certeza que lhe serve. Então, ainda quer mais?

O João Alberto ficou por momentos indeciso, mas conseguiu lobrigar a mudança de vida em que tinha vindo a pensar. Pessimista, pelas muitas privações e desenganos que já tinha sofrido, aceitou sem entusiasmo a proposta que lhe faziam. Até achou melhor não retrucar a respeito do peso dos cartazes, porque, rápido em deduções como raras vezes teria sido, pensou: se eu não aguentar o serviço, desisto e se não ganho também não trabalho - fico a lucrar o fato; o homem não me vai mandar para a morgue por causa disso, e se me puser na cadeia a coisa não é assim tão má, o Chico da Eira teve sorte em ter estado preso aquele tempo todo.

Dois dias depois, era o primeiro dia de trabalho como “homem-sandwich”. Lá andava ele de cartazes publicitários, um pouco melhorado em todo o seu aspecto. Desde logo teve a satisfação de verificar que aguentava bem o peso dos cartazes. Não eram tabiques de madeira pesados como imaginara, mas cartões duros e consistentes, devidamente escrevinhados. O patrão estava a ser amigo, deu-lhe uns cigarros, e até lhe disse que se chovesse, se abrigasse em qualquer sítio. Mas nunca choveu, e Alberto chegava ao fim do seu dia cansado mas satisfeito. Comia melhor do que lhe era habitual, fumava com maior prazer e de vez em quando permitia-se o luxo de um copito de vinho e um café.

Ao fim de dois meses, o patrão deu por finda a sua campanha publicitária. Prometeu que no próximo Verão …talvez …talvez eu o chame outra vez, creio que não tem razão de queixa e então nessa altura conversamos.

 

Logo a seguir, Alberto regressou ao seu habitat, à sua anterior rotina de “sem abrigo”, e depressa ficou sujo de cara, de unhas e de mãos. Ninguém mais lhe deu trabalho e, enquanto não ficou sujo de roupa, o Chico da Eira e dois ou três compinchas mais conhecidos, olhavam-no de soslaio e com sorrisos trocistas. Voltou a ter fome, voltou a vasculhar ao fim do dia o lixo da cidade. Num desses dias, às sete horas da tarde, hora de encerramento de quase todos os estabelecimentos comerciais, o Alberto, remexendo o lixo dos recipientes, reparou que estava muito perto de uma grande joalharia da firma MACHADO & MOUTAS, LDª. Enquanto foi “homem-sandwich” ia comer uma sopa e pouco mais a uma tasca e, casualmente, perto de si, esteve de certa vez alguém que se referiu ao sr. Jorge Machado homem muito rico, na prática o único proprietário, na Rua da Bemposta, de um grande estabelecimento de joalharia, relojoaria, e outro, portas pegadas, de óculos e instrumentos de precisão, patrão de mais de trinta empregados. Como se isso fosse pouco, havia junto destes estabelecimentos uma grande farmácia, com gerência e propriedade de um seu filho. A conversa não era nada com ele, mas o Alberto ouviu quase tudo, compreendeu quase tudo, e até ficou a saber que o tal Sr. Jorge era pessoa muito considerada na cidade e dava generosos donativos a várias instituições de benemerência e de projecção social. Ora, naquele dia, Alberto ainda não tinha ingerido nada a calar o estômago, e no dia anterior tinha sido quase a mesma coisa. Num impulso, venceu o acanhamento que normalmente sentia no momento de pedir, e dirigiu-se ao Sr. Jorge Machado, que estava a fechar as suas contas enquanto três empregados estavam na tarefa de encerrar os estabelecimentos.

Quando os empregados viram o Alberto entrar pelas portas adentro, logo suspenderam o serviço e ladearam o patrão como que a querer defendê-lo. Por sua vez, este ficou alarmado e logo vociferou a brandir o machado do seu nome.

– Que quer você daqui !!

– Desculpe, Sr. Jorge, eu ainda não comi nada hoje, tenho andado a matar a fome com copos de água. Agradecia me desse alguma coisa para eu ir comer uma sopa.

– Estou cheio de ouvir essa cantilena! Vá mas é trabalhar!

– E o senhor me arranja? Ainda não há muito tempo trabalhei para um penhorista, mas o serviço acabou e…

– Para um penhorista? Vê-se logo que está a mentir! Pode lá ser! Esses tipos são uns cretinos e uns agiotas!

– É verdade, Sr. Jorge! Sabe, até por ter trabalhado para ele dois meses, perdi por agora o direito à sopa dos pobres. Foram dizer à directora da cantina que eu já trabalhava, que já vivia bem, que ganhava muito, e desarriscaram o meu nome, porque eu enquanto ganhei algum não apareci. Agora a tal directora está de férias, e quem lá está diz que não me pode resolver nada enquanto ela não vier. É por isso que não tenho comido quase nada e ando cheio de fome. Por favor…

– É…é …eu vou mesmo averiguar isso! – voltou a interromper o Sr. Jorge Machado – Olhe, vá-se embora que não há nada para ninguém.

– Oh, Sr. Jorge! – disse o Alberto pungentemente – o senhor não me quer dar nada para uma sopa?, o senhor, um homem que costuma ser tão bolsa aberta para várias obras!!

– Como sabe disso?! Olha…olha!… agora deu-lhe para a engraixice! Ora vá-se lá embora! Se você tivesse asas, eu dava-lhe uns litros de gasolina para voar bem depressa daqui!

João Alberto não teve outro remédio. Retirou-se cabisbaixo. Não se sabe no que ficou a pensar, só se sabe que a violência da decepção e da afronta lhe fez deixar de ter fome por algum tempo.

 

Algumas horas depois, já bem de madrugada, um enorme estrondo ecoou na Rua da Bemposta – alguém tinha atirado contra a vidraça da farmácia um pesado bloco de pedra, paralelepípedo que por perto estava nas obras inacabadas da estrada. Eram muito poucos os transeuntes, mas não foi difícil apanhar o meliante daquela proeza, que pouco parecia querer fugir. A Polícia foi célere a chegar e logo o prendeu – era o João Alberto, que, uma vez preso, não ofereceu qualquer resistência.

– Homem! Que raio de coisa fez você? Que queria você da farmácia?

– Nada!

– Nada?! Você é maluco ou quê? Não vê que desgraça a sua vida?

– Talvez não. Não quero roubar ninguém. Tenho fome. Só quero que me tirem a fome.

O polícia não percebeu nada.

– Mas que diabo de ideia foi essa de assaltar uma farmácia a uma hora em que havia ainda gente a circular, e começar logo a fugir?

– Escolhi essa farmácia por saber que para os donos o prejuízo pouco ou nada conta.

O polícia continuou a não perceber nada.

Dormiu nos calabouços da Polícia e foi julgado por uma juíza, mulher relativamente jovem, que também não percebeu nada, vendo nele apenas um meliante que por vingança estourou uma montra. Aplicou-lhe dez meses em cima do lombo.

 

Quando na cadeia deixou de ter fome e lhe deram um catre com cobertores para dormir, compreendeu porque o Chico da Eira tinha ficado mais corado e nutrido. João Alberto sorriu de satisfação. Relembrou o encontro com o Sr. Jorge Machado, mas já não sentiu o novelo de angústia que a conversa lhe tinha causado. Pelo contrário, sentiu-se sereno e até feliz. O seu golpe tinha dado o resultado pretendido. Mas o melhor de tudo, era que tinha descoberto um novo ciclo de vida. Ele há tantos rebos e de todos os tamanhos, ele há tantas montras e de bons estabelecimentos!...

30 de Set.2014

laurindo.barbosa@gmail.com

publicado por Fri-luso às 09:28

Laurentino Sabrosa
Image Hosted by ImageShack.us
Europa
Europa
pesquisar
 
subscrever feeds